Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Diretas Já online

Carta Capital Online

Editoria: Brasil 13/09/2011 – terça-feira

Para quem pegou gosto em sair por aí caminhando e cantando e seguindo a canção durante o feriado para lutar contra “toda essa corrupção”, uma dica. Está saindo do forno um site que pretende reunir o maior acervo sobre o movimento “Diretas Já”, que em abril de 1984 chegou a levar até o Vale do Anhangabaú nada menos do que 1,5 milhão de pessoas com um pedido uníssono (embora derrotado pelo colégio eleitoral): “queremos votar para presidente”. Isso num tempo em que não existia Facebook nem Twitter para agitar os manifestantes. Site, que vai disponibilizar fotos e vídeos do período, vale como documento histórico e como referência sobre o que aconteceu, anos depois, com os antigos defensores da liberdade.

O lançamento do site (bradoretumbate.org.br) será no dia 19 de setembro, no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo. Na página, o internauta que quiser saber como se fazia protestos na primeira metade dos anos 1980 poderá assistir a depoimentos de 70 personalidades que se engajaram na campanha já na reta final da ditadura.

O exercício pode ser didático por dois motivos. O primeiro, pelo testemunho de uma época – num período em que nem todas as personalidades, sobretudo artistas, contavam com marqueteiros de frases feitas nem evitavam tomar posições publicamente. O segundo, para saber como eram e o que se tornaram algumas das lideranças que pediam mudanças num tempo de liberdade restrita. Entre os entrevistados pelo jornalista Paulo Markun, idealizador do projeto, estão Fernando Henrique Cardoso, Marta Suplicy, José Serra, Ricardo Kotscho e Marcelo Tas, que revelam detalhes sobre como contribuíram para que o direito a voto fosse instituído no Brasil.

Quase três décadas após as “Diretas Já”, soa até estranho imaginar como algumas figuras políticas, hoje arquirrivais, conseguiram sobreviver à convivência no mesmo palco. Naquele tempo, petistas e tucanos (que ainda não haviam criado o PSDB) estavam na mesma luta.

Um dos testemunhos é feito por José Serra, que surfou no movimento estudantil com o selo de paladino da liberdade e, em sua segunda tentativa de chegar à Presidência, em 2010, patrocinou uma das mais sangrentas (e medievais) campanhas desde a redemocratização, ao acusar a adversária de planejar, caso eleita, a liberação geral do aborto.

Cassado em 2005 e inelegível até 2016 sob a suspeita de comandar o Mensalão, suposto esquema de suborno a parlamentares em troca de apoio político ao governo de Lula, José Dirceu, hoje réu no STF, também apresenta sua versão sobre a ditadura militar. Na época, era um dos principais líderes da União Nacional dos Estudantes (UNE) e opositor do regime militar. O ex-guerrilheiro estava no grupo de presos políticos libertados em troca do embaixador americano Charles Burke Ellbrick, sequestrado em 1969 pelos grupos armados de resistência ALN (Ação Libertadora Nacional) e MR-8 (Movimento Revolucionário Oito de Outubro).

Outra figura política que dá seu depoimento é a senadora Marta Suplicy, ex-prefeita de São Paulo (2001-2005) que tem até hoje, entre suas bandeiras, a defesa dos direitos LGBT – o que não a impediu de insinuar, em campanha pela prefeitura paulista, em 2008, que seu adversário, Gilberto Kassab, era homossexual, ao pedir que os eleitores se questionassem se ele era casado ou tinha filhos – não era, não tinha.

Editoria: Brasil 13/09/2011 – terça-feira Carta Capital Online

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