Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Diretas Já, para manter a memória viva

Diário do Comércio Editoria: Política 19/09/2011

Brado retumbante, do latim validum clamorem: forte grito que provoca eco. A definição do dicionário Houaiss de Língua Portuguesa talvez seja a melhor forma de traduzir um dos maiores movimentos já vistos no País, o da campanha Diretas Já! Multidões reuniram-se em comícios por todo o Brasil exigindo eleições diretas para presidente da República, depois de 20 anos de regime militar. Foi no ano de 1984. A pergunta agora é: 17 anos depois, os gritos dessas grandes aglomerações em torno da democracia ainda ressoam na memória do brasileiro? O jornalista Paulo Markun aposta que sim. Para relembrar a uns e explicar a outros os significados do movimento, o jornalista lança hoje o site bradoretumbante.org.br.

São 70 depoimentos inéditos de personalidades, políticos e ativistas sobre os cenários e os bastidores de um momento da história brasileira em que o movimento militar via-se desgastado e trilhava caminhos de uma abertura lenta, gradual e segura materializada no veto do Congresso à Emenda Dante de Oliveira, que propunha eleições presidenciais diretas em 1985.

A emenda foi para votação no dia 25 de abril de 1984. Os 298 votos em oposição aos 65 contra não foram suficientes para aprová-la – não se atingiu os dois terços necessários para mudanças na Constituinte. Especialistas disseram, na época, que o fracasso da emenda foi o grande "balde de água fria" na campanha das Diretas. As eleições indiretas e a chapa Tancredo Neves-José Sarney, mesclando PMDB e PFL, ficaram conhecidas como "Diretas já-já", em referência ao fracasso da campanha.

Depoimentos _ Entre os depoimentos, o petista José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil, tece elogios a Franco Montoro, fundador do PSDB e governador de São Paulo na época das Diretas. Fernando Henrique Cardoso fala da importância de Luiz Inácio Lula da Silva e das greves do ABC no processo de redemocratização. José Sarney revela os bastidores do veto da Emenda Dante de Oliveira pelo Congresso Nacional.

A cantora Fafá de Belém também conta o que viu e ouviu naquele ano de 1984. Ela ficou conhecida como " a musa das Diretas", graças à sua partici-pação ativa nos co-mícios. Fafá convi-veu com os mais diversos políticos durante a campa-nha: Teotônio Vilela (PMDB), a quem dedicou a música Menestrel das Alagoas, Tancredo Neves (PMDB), Franco Montoro (PSDB), Ulysses Guimarães (PMDB), Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Lula (PT), Paulo Pimenta (PT).

Sobre alguns deles, dedica um espaço maior em sua memória. "Sobre Ulysses (o político Ulysses Guimarães, um dos idealizadores da campanha Diretas Já! e um dos nomes mais importantes na criação da Constituição Cidadã de 1988), todo mundo sabe do seu papel nas Diretas. Eu não vejo nenhum outro político que tenha tido a grandeza que ele teve de abrir mão da sua própia candidatura em nome da democracia".

Aí, a cantora faz referência ao fracasso da candidatura de Ulysses a presidente, após veto do Congresso e à preferência dos parlamentares pela chapa Tancredo Neves-José Sarney em eleições indiretas. "Ele era o senhor da causa (da democracia)", arrematou a artista. Sobre Tancredo Neves, a cantora dispara: "Era uma velha raposa. Ele entrou nas Diretas pressionado pela população, tinha um faro e um jeito próprio de fazer política. Depois da morte dele, ninguém sabia direito que acordos ele tinha fechado. Acho que isso deu um embaralhamento muito grande na época". Cadê você? Em 16 de abril de 1984, cerca de 1,5 milhão de pessoas participaram do comício no Vale do Anhangabaú em São Paulo. As fotos deste e de outros, como o que aconteceu em frente à igreja da Candelária no Rio de Janeiro e o da Praça da Sé, em São Paulo, estão disponíveis no site, e nelas o visitante pode marcar o lugar exato em que estava, além de também poder inserir vídeos e textos contando suas experiências com o Diretas Já!

Hino – O nome do site Brado Retumbante surgiu da vontade de quebrar o estigma que o Hino Nacional tinha no regime, afirma o jornalista Paulo Markun. "O nome é para valorizar um termo do hino. Até pelo fato de que na minha juventude a gente tinha vergonha de cantar. Não sentíamos orgulho daquilo".

A ideia de reunir documentos e depoimentos do movimento Diretas Já! nasceu de 1986, diz Markun. A partir de suas entrevistas com os candidatos à presidência da República, ele decidiu "escrever um livro sobre a luta pela democracia mesclando a biografia de candidatos e ativis-tas". Mas só em 2010 é que o jornalista conseguiu retomar o projeto, que ganhou um novo formato – agora aproveitando os recursos do mundo virtual.

O site será mantido com recursos da Uninove e do Ins-tituto de Cultura Democrática. Os depoimentos serão entregues ao acervo digital do Museu de Arte e Som (MIS) de São Paulo e da Cinemateca Brasileira.

Link: http://www.dcomercio.com.br/index.php/politica/sub-menu-politica/73653-diretas-ja-para-manter-a-memoria-viva