Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Nova geração 'ignora' campanha das Diretas Já, afirma Paulo Markun

Editoria: Política 15/09/2011 – quinta-feira

Site Brado Retumbante, a ser lançado na semana que vem, traz acervo multimídia com depoimentos com personagens centrais do movimento pela democracia

O jornalista Paulo Markun lança, na próxima segunda-feira, 19, o site Brado Retumbante, dedicado à preservação da memória sobre o movimento das Diretas Já. "É um resgate de um momento importante da história que a nova geração ignora", disse o jornalista ao Estadão.com.br. Para Markun, as mobilizações que ocorrem atualmente no País, como as manifestações do último 7 de setembro contra a corrupção e o abaixo assinado pela Lei da Ficha Limpa, não tem nenhuma relação com o movimento das Diretas Já. "Todo mundo diz que é contra a corrupção, mas você não tem um objetivo. Naquele caso você tinha uma coisa muito objetiva e clara, que era o seguinte: tinha uma lei que dizia que você não podia votar para presidente, e queriam derrubar a lei." Ele encontra mais relações com os movimentos e manifestações que ocorreram em países como o Egito e Espanha. "Foram movimentos que não tinham lideranças, que não foi de cima para baixo, assim como a campanha da Diretas."

Dentre as personalidades que concederam entrevistas para o projeto, estão Fernando Henrique Cardoso, Chico Buarque, Eduardo Suplicy, José Sarney, Ricardo Kotscho, Marta Suplicy, Fred (do Ultraje à Rigor), José Serra, Marcelo Tas, entre outros. O elenco heterogêneo de participações reforça a abrangência que caracterizou o movimento da Diretas Já. "Eu tinha uma lista inicial de umas 130 pessoas", contou Markun. Ele disse que serão acrescentadas novas entrevistas àquelas que já estarão disponíveis no lançamento do site e revelou alguns episódios que impediram a presença de mais entrevistados. "O Aécio (Neves), quando eu ia gravar, quebrou a costela. O Itamar (Franco), que estava mais ou menos acertado, ficou doente e morreu. O (ex-jogador) Sócrates vinha gravar uns dias antes e aí foi hospitalizado."

Uma das ausências mais notáveis, o ex-presidente Lula teve de cancelar "por uma inflamação de ouvido". O ex-presidente é considerado por Markun como um dos personagens estruturais da história das Diretas Já. O jornalista inclui nessa lista também Mário Covas, Miguel Arraes, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Franco Montoro, dentre outros. "São todos personagens que estavam juntos, ou 'em cena', no dia 16 de abril de 1984, que foi o último comício das Diretas, e de alguma forma suas histórias tem a ver com períodos muito específicos do processo."

Virada. De acordo com o jornalista, um dos momentos mais memoráveis da campanha pelas Diretas Já, citado por todos os depoimentos, foi o comício da praça da Sé, em São Paulo, em 25 de janeiro de 1984. "Esse comício foi uma decisão solitária do Montoro, contra toda a cúpula do PMDB, o PT também não acreditava, ninguém acreditava, muito menos em 25 de janeiro, que era feriado", lembra o jornalista. Ele conta que a ideia de fazer o comício teria surgido em uma reunião com intelectuais no Rio de Janeiro, em 1983, fato relatado nos depoimentos por Eduardo Muylaert e por Paulo Cesar Pinheiro.

"O movimento já vinha mais ou menos acontecendo, o PT já tinha feito um comício no Pacaembu, mas nunca uma ação com o peso todo de um governo estadual controlado pela oposição. Foi onde a campanha virou uma campanha de massas."

"O que levou ao sucesso das Diretas e o que foi o cimento da atuação conjunta das lideranças mais variadas foi a massa. Não foi o contrário", ressaltou Markun, lembrando que muitos dos principais personagens do processo, como Leonel Brizola, José Dirceu e Lula, não tinham um compromisso com a democracia no seu passado. "O Lula, que nunca foi da luta armada, não acreditava em partido político, achava que isso era uma bobagem, até ele criar o PT", lembrou. "Foi uma coisa meio fortuita."

O projeto teve acesso a material do Serviço Nacional de Inteligência (SNI) sobre a campanha das Diretas, que ainda não estará disponível na segunda-feira, mas deve ser acrescentado em breve. O jornalista destacou que, "por incrível que pareça", o relato desses agentes era muito rigoroso e será interessante comparar esse material com o conjunto de depoimentos e perceber as diferenças entre as versões. "Aí, você olha as descrições de determinadas lideranças ou partidos naquelas reuniões das Diretas e vê o que os seus sucessores ou personagens contam, e vê que uma coisa não bate com a outra."

Começo Markun contou que o projeto foi iniciado em 1986, imediatamente após o resultado da votação que barrou o direito ao voto direto - objetivo da campanha Diretas Já -, e foi retomado no ano passado. "Em 1986, eu organizei uma série debates na Unicamp com figuras que tinham participado da campanha pelas Diretas - estavam todos em cima do palanque unidos -, e que ali já começavam a se delinear como candidatos à Presidência em 1989, como Mário Covas, Fernando Gabeira, Fernando Henrique, Leonel Brizola, Lula. E aí surgiu a ideia de fazer esse livro, que seria a interrelação das biografias dessas pessoas com o período histórico que vai de 1961 à 1985." O jornalista disse que, na época, não conseguiu terminar o trabalho.

Links: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,nova-geracao-ignora-campanha-das-diretas-ja-afirma-paulo-markun,773159,0.htm http://estadao.br.msn.com/ultimas-noticias/nova-gera%C3%A7%C3%A3o-ignora-campanha-das-diretas-j%C3%A1-afirma-paulo-markun