Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Um site para refrescar a memória das Diretas Já

Veio em boa hora o site "Brado Retumbante _ do golpe às diretas", lançado na noite desta-segunda-feira pelo jornalista Paulo Markun e o Instituto de Cultura Democrática, no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. No momento em que a desinformação, a falta de memória ou a má fé tentam fazer comparações entre os recentes protestos contra a corrupção e o maior movimento cívico já visto no país, nada como contar a história como a história foi, narrada pelos seus próprios protagonistas. Markun já gravou mais de 70 depoimentos de líderes políticos, religiosos, sindicais e empresariais, intelectuais, artistas e jornalistas que estão no site www.bradoretumbante.org.br e servirão de base para um livro. A campanha das Diretas Já nasceu no final de 1983, com um comício em frente ao Estádio do Pacaembu com um objetivo definido: a volta das eleições diretas para a Presidência da República, um marco na luta pela redemocratização do país após 20 anos de ditadura militar. Foi um movimento suprapartidário que mobilizou a chamada sociedade civil, com brasileiros de todas as classes sociais, idades e cores partidárias, unidas pela reconquista das liberdades públicas numa grande festa popular que varreu o país de ponta a ponta até abril de 1984. Nada tem a ver com os recentes protestos organizados pelas redes sociais e amplamente divulgados por setores da grande mídia, com uma pauta difusa "contra tudo o que está aí", tendo por gancho a corrupção que assola o país faz muito tempo, sem apontar qualquer solução concreta. Para começar, não havia internet nem celular em 1984 e, com a honrosa exceção do jornal "Folha de S. Paulo", os principais veículos da imprensa brasileira boicotaram até onde puderam o noticiário sobre o movimento que ganhava as ruas. Só quando não dava mais para ignorar o mar de gente crescia a cada comício, nossa intrépida imprensa ousou mostrar o que estava acontecendo no país. Agora é fácil, qualquer blogueiro nervoso pode passar o dia inteiro xingando o governo e o mundo, mas naquela época os valentes se escondiam no anonimato das redações sob controle. Motivação, mobilização, papel da imprensa, dos partidos e da sociedade civil, o clima vivido no país _ não há termos de comparação, como alguns insistem em escrever, entre o Bra-sil de 1984 e o Brasil de 2011. Não havia naquela época esta mistura de jovens idealistas e malacos velhos procurando um atalho para voltar ao poder que perderam em 2002 a bordo de um movimento dito "apolítico e apartidário", como se isto fosse possível. Vivemos o mais longo período de amplas liberdades públicas, o país cresceu e distribuiu renda, é respeitado lá fora e aqui dentro os brasileiros melhoraram de vida e resgataram a auto-estima, o orgulho de ter nascido aqui. Fiquei feliz de ter participado desta jornada de 37 anos atrás como repórter da "Folha" e de poder reencontrar tantos amigos no MIS, alguns que não via há muito tempo, a começar pelo grande Osmar Santos, o homenageado da noite de segunda-feira.

Editoria: Blogs 20/09/2011 – terça-feira R7 - Balaio do Kotscho

Link: http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/2011/09/20/um-site-para-refrescar-a-memoria-das-diretas-ja/