Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Diretas Já

Desde que o primeiro ato institucional permitiu a eleição indireta do marechal Castelo Branco, as diretas passaram a fazer parte do programa da oposição. Mas durante um longo tempo, a tese aparecia em segundo plano, ofuscada pela proposta de uma assembleia nacional constituinte, sem a qual, imaginavam políticos e teóricos, seria inútil restaurar o voto direto.

No início de 1983, antes mesmo de tomar posse, um deputado em primeiro mandato, o mato-grossense Dante Martins de Oliveira, do PMDB, foi à Câmara conhecer melhor o funcionamento do parlamento. Um funcionário lhe mostrou o terminal do Serviço de Processamento de Dados do Senado. Dante pediu uma relação das propostas de emenda constitucional que restabeleciam as eleições diretas para presidente - tema que sempre incendiava o público em seus comícios e reuniões políticas. Quando o sujeito disse que não havia nenhuma, o futuro deputado duvidou e pediu que ele digitasse o pedido novamente. A resposta foi a mesma e Dante se decidiu:

Fiquei meio zonzo, achei aquilo maluco e resolvi fazer uma emenda.

De volta a Cuiabá, Dante pediu a ajuda do pai, um ex-deputado da UDN. Ambos produziram um documento curto e grosso, baseado na constituição de 1946.

Com a emenda redigida, Dante voltou a Brasília, apanhou na Secretaria da Câmara a relação dos eleitos e começou a recolher as assinaturas necessárias para apresentá-la. Parecia um gesto sem qualquer consequência. Mas as circunstâncias políticas, um persistente trabalho de um grupo de jovens parlamentares e o fato dos maiores colégios eleitorais já estarem sob o comando de governadores da oposição fizeram com que as diretas acabassem se transformando no maior movimento de massas da história do país.

Em fevereiro de 1983, no início da sessão legislativa da Câmara dos Deputados, o recém-eleito deputado matogrossense Dante de Oliveira, do PMDB, de 32 anos, ex-militante do MR-8, apresentou uma emenda constitucional que restabelecia as eleições diretas em todos os níveis e fixava a data de 15 de novembro de 1984 para a escolha do primeiro presidente eleito pelo voto dos brasileiros em 25 anos.

A emenda não teve repercussão imediata, mas uma semana depois, a primeira reunião da bancada do PMDB caminhava para o final quando o deputado baiano Domingos Leonelli pediu a atenção dos colegas para a proposta de seu antigo companheiro de juventude do MDB e conseguiu que Freitas Nobre desse a palavra ao autor da PEC 05/1983. Com alguma dificuldade, Dante explicou sua projeto,

Gaguejei um pouco mais que o normal. Recordo-me de alguns sinais de aprovação, outros de impaciência,pelo assunto e pelo orador. Dei o recado.

Freitas Nobre captou a mensagem. Eleito líder com o apoio dos autênticos e dos comunistas eleitos pelo PMDB e com o aval dos parlamentares ligados a Tancredo Neves, designou seis deputados para elaborar um plano de mobilização em torno da PEC. Um era veterano - Roberto Freire, ligado ao PCB. Os outro cinco eram novatos. Quatro deles eram da ala esquerda do partido: Dante, Leonelli, o paulista Flávio Bierrenbach e o gaúcho Ibsen Pinheiro. O mineiro Carlos Mosconi era ligado a Tancredo.

A primeira manifestação pública a favor de eleições diretas ocorreu em 31 de março de 1983, no recém emancipado município pernambucano de Abreu e Lima. Em abril, o diretório nacional do PMDB resolveu lançar uma campanha pelas eleições diretas. Campanha cautelosa, a ser iniciada pelas pequenas cidades, ainda não era a prioridade zero do maior partido de oposição.

No dia 26 de maio de 1983, o presidente do PMDB, Ulysses Guimarães e o líder Freitas Nobre foram encontrar o presidente do PT para propor uma campanha conjunta em favor das diretas. Antes do encontro, Lula dissse que as oposições não deviam lançar candidato, para evitar rivalidades. Ficou acertado que procurariam instituições da sociedade civil, como a Ordem dos Advogados e a Conferência Nacional dos Bispos.

No final da tarde de 15 de junho, em Goiânia, Ulysses subiu ao palanque da primeira manifestação de rua em favor das diretas. Oito mil pessoas ouviram seu discurso e o do governador Iris Rezende. Naquela mesma hora, Leonel Brizola falava ante a comissão mista do Congresso que analisava a emenda Dante de Oliveira. Era seu primeiro pronunciamento, depois de sua cassação e da ida para o exílio, em abril de 1964. Para o governador do Rio, a voz das ruas mandava um recado:

O povo está fazendo um chamamento à unidade nacional. E não há unidade sem democracia, nem democracia sem eleições diretas, universais, gerais.Não há solução para essa crise que aí está sem eleições gerais.

Traduzindo: em vez de diretas já, diretas em 1986. Até lá, um mandato-tampão para Figueiredo. Dante de Oliveira pediu mais explicações sobre o mandato-tampão. Brizola esclareceu:

Quando se fala em ampliar o mandato do presidente Figueiredo, com o fim das eleições gerais, eu não excluo a possibilidade. Embora meu pensamento não coincida com o dele (...) seria uma falta de honra não reconhecer que ele está sendo firme no prosseguimento do processo democrático.

No dia 26 de junho, o PMDB fez novo ato em Teresina.Também em junho, sindicalistas, esquerdistas independentes e militantes ligados às comunidades eclesiais de base, entre os quais estava José Dirceu, organizou dentro do PT a chamada Articulação dos 113. O grupo apresentava-se como a única tendência autenticamente petista e queria evitar que o PT se diluísse numa frente oposicionista liberal como o PMDB ou fosse seduzido por uma proposta socialista sem trabalhadores, como o PDT. Mas ao mesmo tempo, buscava dificultar a movimentação das organizações de esquerda, cada vez mais atuantes e influentes. Na definição de Dirceu, a Articulação seria a coluna vertebral do partido:

Defendendo o PT como um projeto estratégico, um partido de massas e não de vanguarda, um partido aberto, de luta política e institucional... O manifesto da Articulação reafirmava a combinação da luta social com a luta político-institucional, o papel da luta social na transformação de uma sociedade e o compromisso com governar. E isso criava problemas dentro do PT. No começo muitas facções do PT só apostavam no processo revolucionário, não no processo democrático. Eu era secretário de formação política e quando falei pela primeira vez em debater programa de governo, fui acusado de direitista, social-democrata...

A Articulação viu nas campanha das diretas uma bandeira capaz de somar forças e acelerar o fim da ditadura que já dava claros sinais de desgaste. Mas não obteve consenso imediato, explicaria Dirceu:

Havia um embate dentro do PT entre os que achavam que a democracia era uma plataforma burguesa e o núcleo da Articulação na executiva, que achava necessário encontrar um tema que mobilizasse – e esse tema, concluímos, eram as diretas para presidente.

No dia 29, no Palácio da Guanabara, no Rio, Leonel Brizola, Franco Montoro e Lula selaram o acordo que iria colocar nas ruas a campanha das diretas. Lula tinha pressa:   Essa campanha não é para 85 ou 86. E para ontem ou para amanhã.

Dentro do PT, a adesão ao movimento não foi imediata: em julho, no conselho da UNE, convocado para discutir as diretas, parte do auditório virou as costas e vaiou durante doze minutos o secretário de Comunicação do governo de São Paulo. Jorge da Cunha Lima, poeta e jornalista, representava ali o apoio de Montoro ao movimento. A mesa apoiou Cunha Lima, mas ficou evidente que ainda seria preciso construir aquela frente política. No PMDB, nem todos confiavam nas diretas-já (que ainda não tinham esse carimbo). Em agosto, o senador Fernando Henrique preconizou um acordo entre o PMDB e o governo:

O colégio eleitoral nós não queremos, porque é viciado, não representa a sociedade e não dá garantia de legitimação a nenhum presidente. Agora, existe uma Constituição que diz que só se muda o colégio eleitoral com dois terços no Congresso. Nós não temos os dois terços no Congresso. Então, a realidade nos dá duas saídas: ou nós temos a força das armas – e nós não temos, nem achamos que seja a saída adequada – ou nós temos a força da mobilização da sociedade, mobilização das opiniões, mobilização dos grupos de interesse, mobilização da base.

FHC aceitava até mesmo apoiar um candidato do PDS, desde que as diretas fossem restabelecidas. E não via consenso ou rendição nessa atitude:

Quem trai os ideais é um canalha. Não se trata disso. É preciso entender que a democracia contém em si a necessidade de negociação. Há quem diga que o regime não é democrático, e por isso não se negocia. Eu sei, mas estamos numa transição, temos de forçar o regime a ser negociador. Ou seja, temos de forçar o regime a ser democrático.

No dia 18 de novembro, Montoro reuniu-se com Tancredo Neves em Poços de Caldas e firmou um pacto – primeiro as diretas, depois as candidaturas. Oito dias depois, os governadores de oposição divulgaram um documento repisando a mesma tese.

No dia seguinte, 27 de novembro, aconteceu o primeiro grande comício em São Paulo na Praça Charles Müller, em frente ao Estádio do Pacaembu. Organizado pelo Partido dos Trabalhadores, misturava a forma de eleger o presidente com outros temas, como a Nicarágua. Teve alguns milhares de participantes, foi fotografado e filmado pela Polícia Federal. O deputado Eduardo Suplicy circulando em cadeira de rodas, com o tronco e um pé enfaixados (resultado do atropelamento que sofrera no dia anterior).

Do primeiro escalão oposicionista, só compareceram Fernando Henrique Cardoso e o líder do PMDB na Câmara, Freitas Nobre. Tancredo Neves ficou em Minas, Leonel Brizola no Rio e Ulysses Guimarães , às voltas com os preparativos da convenção do partido, nem deu as caras.

A presença de Franco Montoro foi objeto de longa negociação, mas não se confirmou. Certo de que seria vaiado, o governador de São Paulo alegou um compromisso assumido anteriormente: assistir a uma corrida de cavalos em sua homenagem.

No Pacaembu, quem não era do PT, da CUT ou da Igreja católica era vaiado inapelavelmente. O mais aplaudido foi Luis Inácio Lula da Silva, o presidente do Partido dos Trabalhadores, que se empenhara pessoalmente na mobilização.

Às cinco e meia, a atriz Esther Góes anunciou que Teotônio Vilela morrera em Maceió, cercado pela família. O ex-senador e grande nome da luta pela anistia tinha 66 anos e fora abatido pelo câncer. O senador Fernando Henrique Cardoso falou logo após a atriz: tomou o microfone e antes de pedir um minuto de silêncio, constatou, emocionado:

Não poderia haver homenagem maior a Teotônio do que este comício pelas diretas.

Foi ovacionado.

Em dezembro, Ulysses reuniu os presidentes de diretórios para estabelecer  um calendário de discussão sobre as diretas. A cautela da cúpula peemedebista foi atropelada por Montoro, no retornar de uma viagem a Argentina, onde fora assistir à posse de Raul Alfonsín, que encerrara oito anos de ditadura militar. Pouco antes do Natal, num jantar com editores políticos no palácio, o governador anunciou um grande comício em São Paulo. A essa altura, o governador de São Paulo, Franco Montoro, já decidira organizar um grande comício no dia 25 de janeiro, contra a posição de outros peemedebistas como Alberto Goldman, José Gregori e Fernando Henrique Cardoso. Montoro reuniu um grupo de representantes da sociedade civil – entre eles, Lu Fernandes, presidente do Sindicato dos Jornalistas – e anunciou sua decisão para espanto dos presentes. A maioria da Executiva do PMDB – incluindo Fernando Henrique – classificou a decisão de imprudente, mas no dia 26 de dezembro, Montoro e os presidentes do PT, PDT, PMDB, PTB, OAB, da Comissão de Justiça e Paz, da ABI e de vários sindicatos fecharam data e local: 25 de janeiro, aniversário da cidade de São Paulo, na praça da Sé. Para representar o governo de São Paulo no comitê executivo da campanha, Montoro designou o mesmo Cunha Lima vaiado na reunião da UNE.

Na mensagem de final de ano de 1983, pela televisão, o presidente João Figueiredo disse que a campanha das diretas àquela altura, tinha “caráter meramente perturbador”, pois a Constituição previa a eleição pelo colégio eleitoral.

Alguns dias mais tarde, ficou evidente que a mensagem do presidente não causara qualquer efeito. No dia cinco de janeiro, um showmício em Olinda deu início à campanha em Pernambuco. Quinze mil pessoas compareceram. A cantora Fafá de Belém cantou ‘Menestrel das Alagoas’, música composta por Milton Nascimento em homenagem a Teotônio Vilela. Após a música, por sugestão do cartunista Henfil, a cantora soltou uma pomba branca, gesto que repetiria ao longo de toda a campanha.

Uma semana mais tarde, 30 mil pessoas se reuniram em Curitiba, num comício cuidadosamente organizado pelo PMDB. Entre os organizadores, estavam o deputado estadual Roberto Requião e o senador Álvaro Dias. Foram distribuídos 2,5 milhões de panfletos, 15 mil cartazes, 30 mil cédulas eleitorais e 3 mil camisetas. Houve 15 inserções publicitárias nas TVs locais, salvo a afiliada da Globo que recusou-se a veicular as chamadas, ainda que pagas. O animador do comício foi o locutor esportivo Osmar Santos, que Álvaro Dias notara na transmissão da corrida de São Silvestre no dia primeiro de janeiro. Presentes, o governador do Paraná, José Richa, Montoro, Tancredo e Ulysses. Os líderes do PT e do PDT não compareceram, mas a deputada petista Bete Mendes esteve no palanque.

No encerramento, sob aplausos intermináveis, Ulysses anunciou:

Vamos tomar essa Bastilha nojenta e repugnante que é o Colégio Eleitoral. O Colégio Eleitoral é um câncer que está apodrecendo a política e matando a nação. O Colégio Eleitoral representa fome e desemprego. A mão estendida do presidente Figueiredo não tocou a mão desesperada dos brasileiros desempregados.

Em Brasília, o porta-voz da presidência, Carlos Átila ironizou, quando um jornalista quis saber a opinião do governo sobre o comício:

Que comício?

Para Átila, aquele não era um meio hábil de se chegar às eleições diretas. O caminho era uma reforma constitucional.

No dia seguinte, cinco mil pessoas participaram de uma passeata pelo centro de Porto Alegre. Presentes, entre outros Ulysses, Tancredo e o senador Pedro Simon. Cinco dias mais tarde, foi lançado um documento pró-Diretas, assinado por Mário Sergio Duarte Garcia, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil e por outras dez entidades de classe que, juntas, representavam mais de 1 milhão de pessoas, entre profissionais liberais, cientistas, intelectuais e outros. O primeiro movimento dos advogados em favor das diretas fora feito pela seção de São Paulo da OAB, comandada por Marcio Thomaz Bastos.

No dia 19 de janeiro, em Brasília, o presidente do PDS, deputado José Sarney, diz que as manifestações pelas diretas não são a voz da nação e rebate a afirmação de Ulysses, para quem as indiretas jogarão o país no caos, dizendo que o Brasil sempre decepcionara todas as cassandras.

A essa altura, a persistência de Montoro conseguira dissolver todas as dúvidas sobre o comício de 25 de janeiro. Uma comissão organizadora fora criada, tendo o secretário da Cultura Jorge da Cunha Lima como representante do governo, o deputado Valdemar Chubaci pelo PMDB e o secretário estadual do Partido dos Trabalhadores, José Dirceu.

Oitenta entidades participaram da mobilização. Foram distribuídos cinco milhões de folhetos, ocupados 600 outdoors cedidos, veiculados anúncios em rádio e TV. O secretário dos Transportes Metropolitanos, Almino Affonso, com o aval de Montoro, autoriza a liberação das catracas do Metrô, sob o pretexto de que é também uma comemoração do aniversário da cidade.

Na véspera do comício, a TV Globo, que não dera qualquer notícia sobre a campanha até então, passou a veicular chamadas na programação local, gesto que seria considerado por Jorge da Cunha Lima e pelo deputado José Gregori como um dado fundamental, pois sinalizava que era um evento normal, a que as famílias podiam comparecer.

Uma multidão impressionante foi à praça da Sé naquele dia 25 de janeiro de 1984. O arquiteto Ernest Mange que reformou a praça da Sé, estimou em 180 mil pessoas a capacidade do local. Com a rotatividade, os participantes poderiam ter chegado a 250 mil. Outros falam em 300 mil e até 500 mil.

Presentes, artistas como Fernanda Montenegro, Sonia Braga, Regina Duarte, Christiane Torloni, Bruna Lombardi, Carlos Vereza, Irene Ravanche, Juca de Oliveira, Milton Gonçalves, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Fafá de Belém, Alceu Valença e Walter Franco, que chama Chico Buarque. Este só disse uma frase:

A praça está falando para todo o Brasil, pedindo eleições diretas já!

Sem acompanhamento, Chico cantou Apesar de você.

Entre os governadores compareceram Montoro, Brizola, o paranaense José Richa, o goiano Íris Rezende e o acreano Nabor Jr. Tancredo ficou em Minas, recepcionando o presidente Figueiredo, que visitava o Estado. A grande estrela do PT foi Lula. Também estiveram no palanque o deputado Miguel Arraes e o prefeito Mario Covas, vaiado ao ser chamado para discursar por Osmar Santos. Covas fala contra sua própria nomeação indireta e pede minuto de silêncio para Teotonio Vilela.

O deputado do PDS, Luis Furlan, comprometido com as diretas mal conseguiu falar, por causa das vaias. Fernando Henrique pediu calma. Augusto Toscano, líder do PTB foi vaiado também. FHC socorreu novamente e disse que ele era a favor das diretas. Os apupos diminuíram. Brizola foi muito aplaudido e Ulysses também, ao demonstrar otimismo:

A Bastilha que impede as eleições diretas caiu hoje, aqui na praça da Sé. Os governos que aí estiveram foram imprestáveis porque não acabaram com esse ladrão que rouba o povo dia e noite, a inflação, porque não defenderam a soberania nacional e entregaram o país ao FMI, aos bancos estrangeiros e às multinacionais. Eles só podem ser expulsos pela arma do voto direto.

Lula buscou acabar com as vaias:

Se alguém tiver que ser vaiado, que seja o Lula. Para os outros, eu só peço aplauso.

Depois de citar erros dos governos militares, o presidente do PT seguiu adiante:

Não adianta dizerem que esse país não tem jeito, porque este comício está mostrando que o povo é ordeiro.

O último orador foi Montoro, que assumiu o microfone com vaias reduzidas e se entusiasmou:

Há pouco me perguntavam: 300 mil, 400 mil? A resposta é outra: aqui estão presentes 130 milhões de brasileiros. Quiseram tutelar o povo, tratá-lo como objeto. E o povo está dizendo: não sou coisa, não sou objeto, não sou número, não ficha. Sou gente e quero eleger o presidente.

O governador encerrou pedindo a todos que cantassem o Hino Nacional.

A Globo incluiu o comício no Jornal Nacional. A reportagem de Ernesto Paglia misturou a manifestação com outros eventos comemorativos do aniversário da cidade. Mais tarde, a emissora seria acusada de não ter dado qualquer notícia da manifestação. Em seu site, a Globo registraria o depoimento dos principais envolvidos.

Dois dias após o comício da Sé, foi a vez de Olinda, com a presença de Lula, Ulysses e Tancredo. Pelo PTB, Adhemar de Barros Filho. Pelo PDT, Doutel de Andrade, que explicou a ausência de Brizola alegando que ele sofria forte campanha, mas garantindo que o governador do Rio não faria como Getulio Vargas. Preocupado com a presença do público, o PMDB escolhera a praça de Amparo, onde cabem 30 mil pessoas. Faltou espaço para tanta gente.

Em São Paulo, o Comitê pró-diretas se reuniu na Assembleia Legislativa para avaliar o resultado do comício do dia 25. Havia duas tendências: fazer novo evento ou aproveitar sucesso para pressionar. Devanir Ribeiro, do PT, defendeu mobilização crescente, por bairro, fábrica, setor, até desaguar num novo ato público no final de março.

As manifestações se multiplicavam: Maceió, Teresina, São Luis ... Em São Paulo, artistas e intelectuais que integram o Comitê 25 de janeiro se reuniam no bar Spazio Pirandello, de Antônio Maschio e Vladimir Soares para a Festa do Amarelo, oficializando a cor como a oficial da campanha.

O movimento se espalhou: Macapá, Belém, Recife, Caruaru, Rio Branco, Manaus, Capão da Canoa, Osasco, Cuiabá...

Por proposta do PT, foi criada a Comissão Nacional Suprapartidária Pró-Diretas, reunindo dissidentes do PDS. Na primeira reunião, o líder do PT na Câmara dos Deputados, Airton Soares, propôs que a votação da emenda Dante de Oliveira, marcada a princípio para o dia 11 de abril, fosse adiada para maio, permitindo que as negociações com o PDS prossigam. Ulysses recusou a ideia, pois a data de abril já é conhecida.

No dia 24 de fevereiro, Tancredo realizou um grande comício em Belo Horizonte. Antes, se reuniu com o comandante local do Exército, para garantir que manifestação seria pacífica. Seu objetivo do governo era superar Curitiba e São Paulo. Na praça Rio Branco, em frente a Rodoviária, havia 300 mil pessoas.

Num prédio das redondezas, o repórter Ricardo Kotscho, da equipe que a Folha de S. Paulo encarregara de cobrir todos os comícios, anotou uma poesia na faixa colocada pelos estudantes de Engenharia Civil da UFMG:

Hoje somos ondas soltas/ e tão fortes como eles/ nos imaginam fracas. Quero ver quando invertida a corrente/ como eles resistem à surpresa/ como eles reagem à ressaca.

No palanque, o maior número de governadores até então reunido: Tancredo, Além de Montoro, Richa e Brizola, a manifestação teve a presença de Wilson Martins, do Mato Grosso do Sul e Gérson Camata, do Espírito Santo. Sem falar em Ulysses, Lula e num grupo de deputados estaduais e federais de vários partidos, inclusive do PDS. Simone cantou Caminhando, de Geraldo Vandré. Brizola criticou o governo que condenava a presença das bandeiras dos partidos comunistas em todas as manifestações:

Querem nos amedrontar com ameaças, dizendo que há meia dúzia de bandeiras vermelhas. Devem dizer que nossas bandeiras estão vermelhas é de vergonha, pelo que fizeram com este país. Os militares não precisam ter medo de serem julgados, pois quem não deve, não temos. Queremos é que quem roubou, quem assassinou seja julgado.

Ulysses foi o último a falar, mais uma vez:

A emenda Dante de Oliveira foi aprovada aqui, por esta multidão.

Depois do discurso final do presidente do PMDB, a multidão cantou Peixe Vivo, a música símbolo de Juscelino Kubitschek, o Hino da Independência e acompanhou Fafá de Belém no Hino Nacional. Tancredo comemora o resultado:

Minas não podia deixar o Brasil sem sustentação nesta hora. E disse em alto e bom som que o povo brasileiro não abre mão do direito de votar. A tranquilidade deste comício foi uma demonstração de civismo.

No dia 29 de fevereiro, 120 entidades representativas da sociedade civil engajadas no movimento das diretas resolveram fazer nova concentração monstro em São Paulo, uma semana antes da votação da emenda, agora marcada para 25 de abril. Meta: um milhão de pessoas.

15 de março: em rede nacional de rádio e televisão, Figueiredo disse que também era a favor das diretas, mas que sua adoção seria cassação do mandato que eleitores tinham dado aos integrantes do colégio eleitoral. O locutor perguntou se o presidente concordava com os que viam nas diretas a solução até para a crise econômica. O presidente discordou:

Essa é uma fórmula que está enganando muita gente. Se eleições diretas fossem solução, não haveria crise nos países que tem eleição direta. Não existe milagre. O governo não pode, nem deve fazer tudo. O governo garante a liberdade, a ordem e os direitos de cada brasileiro. As oportunidades estão aí. É preciso que as pessoas usem essas oportunidades, porque o país que desejamos é um país de livre iniciativa.

Seis dias mais tarde, uma passeata com 200 mil pessoas levou mais de duas horas para percorrer um quilômetro da avenida Rio Branco no Rio de Janeiro, em meio a informações desencontradas sobre se o protesto ocorreria ou não – que fez com que Chico Buarque, muito esperado, não aparecesse. Brizola não foi, alegando problemas renais. Ulysses também faltou. Mas Lula, Roberto Saturnino, o deputado-cacique Mario Juruna, o senador Nelson Carneiro e o líder comunista Luiz Carlos Prestes participaram.

No dia 10 de abril, aconteceu, afinal, o comício organizado por Brizola, acompanhado por transporte gratuito para a população e sustentado por 10 milhões de panfletos, 200 mil cartazes, 700 outdoors e chamadas do próprio governador na TV, comparando as diretas com a guerra do Vietnã (se população americana conseguiu acabar com a guerra com manifestações de rua, o mesmo ocorreria com diretas). Junto com Tancredo, Brizola fora ao comando do I Exército para garantir caráter pacífico da manifestação. Os dirigentes comunistas não falaram e as bandeiras vermelhas ficaram sem espaço diante do palanque. Os cálculos, geralmente otimistas, estimaram o total de participantes em 1,1 milhão de pessoas. Tancredo apelou para a consciência do povo:

De um povo pode exigir-se tudo. Pode exigir-se que ele sofra, mas não se pode exigir que ele renuncie a sua consciência cívica.

Brizola pediu a auto-dissolução do Colégio Eleitoral. Para Ulysses aquele comício exorcizava dois fantasmas: o estado de emergência e a eleição indireta. Lula homenageou “um ausente” chamando Denise Goulart, filha de Jango à frente do palanque. Depois citou outro ausente: o presidente Figueiredo “que quando está no exterior fala coisas boas, que não acontecem aqui”. Depois de 51 discursos, Fafá de Belém interpretou mais uma vez a canção feita em homenagem a Teotônio Vilela e solta uma pomba que voou alguns metros e pousou sobre o palanque, para alegria dos fotógrafos.

O Hino Nacional encerrou a maior manifestação da história do Rio de Janeiro. A massa se desfez cantando Para não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré. Uma faixa no meio da multidão assinalava:

Se alguns pediram 1964, agora todos pedem diretas.

A TV Globo ofereceu 19 flashes ao vivo de dois minutos e ainda entrevistou ao vivo os cinco governadores no Jornal Nacional. Para completar interrompeu a novela Champanhe e transmitiu final do comício para todo o Brasil. As TVs Manchete e Band transmitiram ao vivo grande parte da manifestação. Mas em Brasília, nem todos puderam acompanhar o ato: a TV Nacional, de Brasília, retransmissora da Manchete, censurou meia hora do jornal apresentado ao vivo, eliminando todo o noticiário sobre o comício do Rio.

Dois dias mais tarde, 250 mil pessoas se reuniram em Goiânia, no dia em que os jornais divulgaram uma insólita declaração de Figueiredo, feita em visita ao Marrocos: se estivesse no Brasil, teria sido o milionésimo primeiro na manifestação da Candelária. O presidente lamentou ainda que PDS não tivesse levantado a bandeira das diretas antes. O deputado Alcides Franciscato, do PDS, amigo do presidente, foi quem transmitiu as declarações, logo depois desmentidas.

No dia 13 de abril, o comício de Porto Alegre reuniu 200 mil pessoas. O governador do PDS liberou o funcionalismo público estadual no dia. Três dias mais tarde, foi a vez de São Paulo. Para evitar comparações com o ato da praça da Sé, os organizadores tinham resolvido fazer uma série de passeatas, desaguando no vale do Anhangabaú.

Por essa época, Fernando Henrique encontrou Figueiredo numa recepção diplomática. O presidente chamou-a para uma conversa numa sala reservada. Disse que respeitava a oposição, salvo a que partia para ofensas pessoais, lembrou que os pais de ambos tinham sido colegas de caserna e amigos e tocou, afinal, no assunto que mobilizava o país:   Uma vez, um deputado me disse que as eleições diretas resolveriam o problema da corrupção. Mas veja o caso do Adhemar de Barros, que foi eleito pelo povo. Isso não impediu a corrupção!   FHC rejeitou o argumento com elegância:   Mas se as pessoas acreditam que a eleição direta resolve, temos mais uma razão para fazê-la...   O diálogo chegou ao noticiário e rendeu-lhe muitas críticas, vindas na maior parte do PT.

Na manhã daquele 16 de abril, o presidente foi convencido a encaminhar ao Congresso uma outra emenda, estabelecendo as diretas. Não para já, mas para o sucessor de seu sucessor, a ser eleito em 1989. Antes das passeatas cruzarem o centro de São Paulo, a fina flor da música popular brasileira apresentou-se informalmente sobre um caminhão-palanque na praça da Sé, num show organizado pelo produtor musical Fernando Faro. O craque corintiano Sócrates, cobiçado pelo futebol italiano, prometeu que ficaria no Brasil, se a emenda fosse aprovada. No começo da tarde, circulava pela praça um boneco de três metros de altura representando Teotônio Vilela.

Montoro, Brizola, Arraes e outros políticos chegaram juntos à concentração organizada na sede da Secretaria da Cultura, no largo São Francisco, a 500 metros do Anhangabaú. O governador de São Paulo, vaiado pelos professores em greve. O do Rio, aplaudido.

A organização do comício, a cargo de José Dirceu e do publicitário do PMDB, Mauro Montoryn, revelou-se incapaz de organizar a espantosa multidão. A passeata deixou afinal a Sé, encabeçada pelo deputado José Gregori, que pediu à banda para tocar a versão de uma famosa marchinha carnavalesca – Mamãe eu quero votar . Muito aplaudido ao chegar na Secretaria da Cultura, Tancredo foi abraçado por Lula, que lhe perguntou a influência da manifestação daquela quarta-feira na votação da emenda. O governador de Minas não de uma resposta conclusiva.

Dos principais líderes da oposição, só o governador do Paraná, José Richa não compareceu - ficou em Curitiba, alegando ter muita coisa para despachar.

Pouco depois do encontro entre Lula e Tancredo, o secretario da Segurança de Montoro, Michel Temer, informou aos secretários da Cultura, Jorge da Cunha Lima, do Trabalho, Almir Pazzianotto e da Justiça, José Carlos Dias, que a cidade estava tranquila. Antes de sair, recebeu um adesivo amarelo que anunciava: Eu quero votar para presidente.

Mario Covas, prefeito de São Paulo, abraçu, emocionado o ex-deputado Marcio Moreira Alves, cujo discurso fora usado como pretexto para que o governo militar baixasse o AI-5 em 1968. Os dois admitiram que nunca tinham imaginado o que estava acontecendo. Pouco depois das cinco da tarde, os vips começaram a deixar o salão da Secretaria. No térreo, os governadores deveriam tomar um micro-ônibus e ir até a praça da Sé, de onde seguiriam no caminhão-palanque. Mas o caminhão não estava mais lá e o jeito foi improvisar uma passeata, liderada pelos governadores, mais Ulysses, Lula, Fernando Henrique e outros.

Depois de uma caminhada penosa e tumultuada pelas ruas do centro, durante a qual Tancredo e Freitas Nobre quase foram derrubados, todos chegaram ao palanque montado sob o viaduto do Chá. Brizola comentou com Tancredo que a imagem da multidão era impressionante. O mineiro concordou e acrescentou: É o fecho de ouro da campanha.

Às oito e meia da noite, em cadeia de rádio e TV, o presidente Figueiredo anunciou o envio da sua emenda das diretas que reduzia o mandato de seu sucessor para quatro anos, marcava as diretas em dois turnos para 1988 (com direito a uma reeleição) e fixava a eleição dos prefeitos das capitais para novembro de 1986.

No dia 17 de abril, quatro mil mulheres protestaram diante do Congresso. As atrizes Lucélia Santos, Maitê Proença e a deputada Ruth Escobar visitaram gabinetes de parlamentares pedessistas contrários às Diretas para tentar convencê-los a votar a favor da Dante de Oliveira. Figueiredo assinou um decreto estabelecendo medidas de emergência em Brasília, a pretexto de garantir a tranquilidade no dia 25 de abril, quando a emenda irá a plenário. A cobertura televisiva foi proibida, as manifestações também. Cidadãos podiam ser presos em qualquer lugar, casas revistadas, entidades de classe postas sob intervenção. Nos dias seguintes, houve manifestações em Salvador e Vitória. Na véspera da votação, um buzinaço no esplanada dos ministério desafiou as medidas de emergência. O general Newton Cruz, comandante militar do Planalto, ameaçou chicotear alguns automóveis. O dia 24 amanheceu com barreiras da polícia nas rodovias de acesso à capital e em todo o Eixo Monumental. O acesso ao Congresso estava restrito a parlamentares e funcionários que demonstrassem estar a serviço.

No plenário, com uma gravata amarela, a cor das diretas, Ulysses fez discurso forte, pediu Constituinte em 1986 e definiu as condições para o diálogo com o governo:

A Nação me autoriza a dizer que quer o diálogo. O diálogo público, perante a imprensa, o rádio e a televisão, testemunhado e fiscalizado pelo acesso livre às galerias e dependências do Congresso Nacional. Sem a mordaça da censura, sem o general Newton Cruz tirar, abusivamente, os interlocutores dos ônibus e automóveis das cercanias de Brasília, ameaçados por baionetas, metralhadoras, camburões, cães amestrados e pregos nas estradas.

O presidente do PMDB foi interrompido 23 vezes por aplausos. José Sarney classificou o discurso de “palavra de intolerância” e disse que nenhum país é governado aos sabor dos “grupos ocasionais de pressão.” Também defendeu as medidas de exceção.

Em São Paulo, a TV Gazeta que transmitia o programa São Paulo na TV da Abril vídeo, foi retirada do ar após entrevista por telefone ao jornalista Paulo Markun, em que o vice-governador Orestes Quércia, numa metáfora óbvia da situação política, comentara o tempo e o trânsito em Brasília.

No dia da votação, houve vigílias cívicas nas principais capitais do país com alto-falantes e placares para apontar como votaram os deputados. No Congresso, quase todos os telefones estavam mudos. Abelardo Blanco, que trabalhava com Almino Affonso, encontrou um aparelho com linha e passou a transmitir os votos para a praça da Sé em São Paulo. A votação começou às 22:45. A emenda recebeu 298 votos a favor e 65 contra. Houve 113 ausências – todas do PDS – e três abstenções – uma de Mendonça Falcão, do PTB e duas do PDS. Faltaram 22 votos para aprovar a emenda. Nas galerias, a multidão cantava: “O povo não esquece, acabou o PDS”. Depois, de mãos erguidas, todos cantam o Hino Nacional.