Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

O Comício do Anhangabaú

No dia 16 de abril de 1984, aconteceu no Vale Anhangabaú, em São Paulo, o último grande comício da Campanha das Direta. Na mobilização, agora coordenada por um comitê com mais de cem entidades, foram utilizados três milhões de panfletos, 100 mil cartazes e chamadas no rádio e na TV.

Às 11h15 na praça da Sé, um boneco vestido de presidiário - e parecido com o presidenciável do PDS, Paulo Maluf - era carregado por um grupo, enquanto dois pregadores discutiam: um dizia que a igreja nunca fora a favor de nenhuma eleição, que o importante é a salvação; outro, sentenciando: Deus tá com os operários, abaixo os padres! Pouco depois, um vendedor quase apanhou. Ele carregava um cartaz anunciando: Apocalipse é o fim do mundo. Nada de eleições. Nada de eleições!

Às três da tarde, começou a chover, mas ninguém arredou pé: ao contrário, a multidão crescia minuto a minuto. Ao lado da praça, na sede da Às três da tarde, Ulysses e Manicardi estavam na sede da Ordem dos Advogados do Brasil, na praça da Sé, para uma reunião final do comitê pró-diretas. Àquela altura, já estava claro que o comício seria um grande sucesso. Com as catracas do Metrô liberadas, as estações viviam um clima de festa. Donos de bares e lojas fechavam as portas, com medo de um quebra-quebra.

Em clima de carnaval, grupos de jovens vestidos de amarelo percorriam o centro. Alguns carregavam um boneco vestido de presidiário, com óculos de armação preta pesada, lembrando o estereótipo de Paulo Maluf, ex-governador de São Paulo, pré-candidato do PDS e alvo permanente da oposição. Às 15h20, um caminhão palanque estacionou bem em frente ao enorme placar das diretas, onde seriam anotada a posição dos deputados quando a emenda Dante de Oliveira, fosse votada, dali a nove dias. O Mercedes Benz vermelho, com 24 anos de uso, tinha 12 caixas de som, equipamento de luz e pouco espaço para oradores. Raimundo estivera com ele no comício da Candelária, no Rio de Janeiro, mas agora, na Sé, corria o risco de ser cercado por fãs, quando o elenco de artistas convocado por Fernando Faro entrasse em cena.

Um enorme boneco de Teotônio Vilela, obra do cartunista Jal, de 28 anos, construído sobre armação da escola de samba Pérola Negra circulou pela cidade, sob aplausos. Muitos paulistanos choraram ao ver a figura do Menestrel das Alagoas.

O esquema de segurança comandado pessoalmente por José Dirceu do PT e Mauro Montoryn, do PMBD acabou ruindo quando a barreira humana formada na esquina da rua Benjamin Constant foi desfeita para permitir que uma passeata de professores estaduais em greve chegasse até a escadaria. Atrás dos professores veio o povo.

A poucos metros dali, Ulysses Guimarães e Lula continuavam na sede da Ordem dos Advogados do Brasil, junto com Marcio Thomaz Bastos, [Mário Sergio Duarte Garcia](tags/mario-s-rgio-buarque] e a coordenação do comitê suprapartidário. Terminada a reunião, Ulysses seguiu em direção à Secretaria da Cultura, ao lado de Lula, Doutel de Andrade do PDT, Ricardo Ribeiro do PTB e Freitas Nobre, secretário geral do PMDB. Cumprimentado e aplaudido, caminhava lentamente. Sua preocupação era com a chuva:

Será que o tempo vai conspirar contra nós?

No trajeto, passou por algumas bancas de jornais, onde seu rosto estava estampado na capa da revista Veja. Em um ano, era a oitava vez que a mais importante do país dedicava sua capa à sucessão do presidente João Figueiredo. Em duas ocasiões, em torno do próprio presidente - em maio de 1983, quando exigiu comando do processo e seis meses depois, ao desistir da tarefa.

A essa altura, Franco Montoro já estava no salão nobre da Secretaria Estadual da Cultura, dirigida por Jorge da Cunha Lima, no largo São Francisco. Ele e seus convidados especiais: Leonel Brizola, Mario Covas, Miguel Arraes, o senador Fernando Henrique Cardoso, deputados como José Gregori, secretários, lideranças dos partidos. No campo das artes, as atrizes Tania Alves, Eva Wilma e Fernanda Montenegro, o ator John Herbert, o maestro Julio Medaglia, os cantores Sergio Ricardo e Walter Franco e as cantoras Tetê Espindola e Fafá de Belém, a musa das diretas, com um impactante vestido amarelo - a cor do movimento, desde que Antônio Maschio se encarregara de popularizar a ideia lançada pelo editor Caio Graco.

A certa altura, chegou Michel Temer, secretário de Segurança do governo do Estado, para relatar a Montoro que não encontrara qualquer problema pela cidade, em seu passeio de inspeção. Depois de conversar com os colegas José Carlos Dias, da Justiça, Almir Pazzianotto, do Trabalho e Jorge da Cunha Lima, da Cultura e voltou para seu gabinete, carregando no peito um adesivo amarelo que anunciava: "Eu quero votar pra presidente".

Finalmente, personalidades e políticos começaram a deixar o salão para ir até o Anhangabaú. O plano original era seguirem até a praça da Sé, onde embarcariam no caminhão palanque, que os levaria em segurança ao local do comício. Mas ninguém mais tinha condição de organizar coisa alguma e o jeito foi improvisar uma passeata. Com um megafone, alguém pedia cooperação com o pessoal da linha de frente, mas o trajeto entre a Líbero Badaró e o Anhangabaú foi penoso. O repórter Sergio Leopoldo, do Jornal da Tarde, que deu uma enorme cobertura do comício no dia seguinte estava lá:

Ulysses Guimarães está lívido. Tancredo já arrancou a gravata, desabotoou o colarinho e segura a faixa pedindo Diretas Já com desespero. Freitas Nobre está quase caindo no chão. Montoro transpira muito e sorri nervosamente. Nos olhos e nos gestos de quem está na primeira fila, o medo e a tensão.

O temor nada tinha a ver com as notícias vindas de Brasília de que o presidente Figueiredo já enviara ao Congresso uma emenda propondo diretas - não para já, mas para o sucessor de seu sucessor. O sucesso do comício era tamanho que todos temiam é serem pisoteados. Mas a multidão era de paz.