Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

O Dia D

Brasília amanheceu sob o clima de cidade tomada pelo inimigo no dia 25 de abril de 1984, em que a emenda Dante de Oliveira seria votada na Câmara dos Deputados. Uma semana antes, o governo determinara uma série de medidas de emergência, supostamente adotadas para garantir tranquilidade aos parlamentares. Estavam proibidas manifestações públicas, o acesso à Esplanada dos MInistérios sob controle e as emissoras de rádio e televisão sob censura rigorosa. Na Câmara, a única forma de comunicação com o resto do país era o telefone, mas as linhas dos gabinetes dos deputados havia sido cortada – restaram apenas alguns aparelhos no plenário. Abelardo Blanco usou um deles para transmitir o andamento da votação para a massa de paulistanos reunidos na praça da Sé - um dos muitos pontos do país em que o povo, em vigília, buscava notícias sobre o destino das Diretas Já.

Um sistema de alto-falante estava montado em Porto Alegre e um enorme Placar das Diretas na praça da Rodoviária em Belo Horizonte. No Rio, os telões instalados no centro da cidade foram inutilizados pela censura. Havia festa na praça Otto em Vitória, Espírito Santo, palanque na praça da Independência, em Recife, passeatas em Florianópolis, Maceió e Belém.

O acesso às galerias foi rigorosamente controlado, mas ainda assim, partidários das diretas ocuparam todos os lugares. O senador Moacyr Dalla abriu a sessão às 9 da manhã, com a presença de 67 senadores e 251 deputados e a reabriu novamente às 14h, agora com 372 deputados e 67 senadores. O deputado Amaral Neto, do PDS, pediu um aparte para lembrar que logo após o golpe militar, Ulysses Guimarães dera seu apoio ao movimento. O líder do PMDB, Freitas Nobre retrucou denunciando que as linhas telefônicas estavam cortadas em todos os gabinetes.

A votação começou às 22:45. Durou pouco e não teve incidentes. No final, foram 298 votos a favor da emenda, 65 contra (sendo 55 do PDS) , três abstenções e 113 ausências. Entre elas a de Paulo Maluf, que não apareceu para votar. O deputado José Sarney Filho votou a favor e se justificou:

Antes de ser filho do senador José Sarney, sou deputado eleito diretamente e tenho que agir de acordo com isso.

Nas galerias, a multidão cantava sem parar:

O povo não esquece, acabou o PDS.