Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Cobertura da Globo

Há uma interminável polêmica sobre a cobertura que a TV Globo dispensou ao comício da Campanha das Diretas, em 25 de janeiro de 1984, na Praça da Sé. A própria emissora apresenta o depoimento de vários profissionais envolvidos na cobertura. O projeto Brado Retumbante pediu para ouvir alguns deles, mas a assessoria de comunicação informou que isso não seria possível, pelo fato do material vir ser disponibilizado no Youtube - com quem a Globo ainda negocia a inserção de conteúdos. Mas autorizou o uso dos depoimentos constantes na Memória Globo. Por razões técnicas, não é possível inserí-los diretamente aqui. Os interessados podem acessar diretamente aqui.

O site da emissora assinala que a emissora cobriu a tramitação da Emenda Dante de Oliveira e a campanha. Quanto aos comícios, diz o seguinte:

A Globo registrou esses comícios pelas Diretas nos seus telejornais locais. Naquele primeiro momento, as manifestações não entraram nos noticiários de rede por decisão de Roberto Marinho. O presidente das Organizações Globo temia que uma ampla cobertura da televisão pudesse se tornar um fator de inquietação nacional. “Mas a paixão popular foi tamanha que resolvemos tratar o assunto em rede nacional”, afirmou ele em matéria publicada na revista Veja de 5 de setembro de 1984.

Vários personagens ouvidos pelo projeto abordaram o assunto. Jorge da Cunha Lima, na época coordenador da campanha das Diretas, como representante de Franco Montoro, diz que o fato da emissora ter dado chamada de última hora para o evento foi muito positivo. Carlos Nascimento, hoje no SBT, rememora a cobertura. José Dirceu, Franklin Martins e outros criticam a cobertura, misturada com outros eventos do aniversário da cidade. Márcia Fantinatti, docente pesquisadora da Faculdade de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas no ensaio A cobertura jornalística da campanha pelas “Diretas já”: o fantasma que ainda assombra a história da Rede GloboI , publicado em 2007, nos anais do V Congresso Nacional de História da Mídia, reconhece que o Jornal Nacional abordou o comício, mas critica a maneira pela qual o fez: (...) mostrando o comício em meio ao clima geral de aniversário da cidade de São Paulo, a edição certamente não favoreceu o esclarecimento da natureza política do evento. A chamada da matéria exaltava a comemoração festiva dos 430 anos da capital paulista, excluindo o comício político; a matéria o inclui, é verdade, mas mencionando-o de modo secundário, superficial e rapidamente, o que é injustificável, dada a sua inegável importância jornalística. Tivesse a Globo apenas omitido os fatos, talvez pudesse ser aceita com mais facilidade a versão sobre o temor à censura. A gravidade, que revela a manipulação das informações que pudessem dar visibilidade ao “Diretas Já”, pela emissora, está na forma previamente concebida de, pela mescla de temas (aniversário + comício), rapidez das imagens e omissão do comício na chamada da respectiva matéria, colaborarem para que as reais dimensões daquela manifestação popular não fossem percebidas pelo telespectador do telejornal..

“São Paulo, 430 anos, nove milhões de brasileiros vindos de todo o país. A cidade de trabalho. São Paulo fez feriado hoje para comemorar o aniversário. Foi também o aniversário do seu templo mais importante, a catedral da Sé. De manhã, na missa, o cardeal arcebispo dom Paulo Evaristo Arns lembrou o importante papel da catedral da Sé nesses 30 anos em que ela vive no coração da cidade: ‘Nessa igreja se promoveu praticamente a libertação de um povo que quer manifestar-se como povo. Eu acho que isso é fundamental para uma Igreja mãe que é tratada com tanto carinho.’ E junto com a cidade aniversariou também hoje a Universidade de São Paulo. A USP completou 50 anos de existência. A ministra da Educação, Ester de Figueiredo Ferraz, foi à USP hoje. Ela falou da importância da Universidade com suas 33 faculdades e 45 mil alunos e assistiu a uma inesperada manifestação de estudantes e funcionários. Eles tomaram o anfiteatro com faixas e cartazes e pediram verbas para a educação, eleições diretas para reitor e para presidente da República. Mais à tarde, milhões de pessoas vieram ao Centro de São Paulo para, na praça da Sé, se reunir num comício em que pediam eleições diretas para presidente. Não foi apenas uma manifestação política. Na abertura, música, um frevo do cantor Moraes Moreira. A praça da Sé e todas as ruas vizinhas estão lotadas. No palanque mais de 400 pessoas, deputados, prefeitos e muitos artistas, Cristiane Torloni, Regina Duarte, Irene Ravache, Chico Buarque, Milton Gonçalves, Ester Góes, Bruna Lombardi, Alceu Valença, Fernanda Montenegro, Gilberto Gil. A chuva não afasta o povo. Os oradores se sucedem no palanque e ninguém arreda pé. O radialista Osmar Santos apresenta os oradores. O governador de São Paulo, Franco Montoro, fez o discurso de encerramento: "Um dos passos na luta da democracia. Houve a anistia, houve a censura, o fim da tortura; mas é preciso conquistar o fundo do poder que é a Presidência da República.”