Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Lembranças do primeiro debate na TV

Na disputa pelo voto direto para o governo dos estados, em 1982, um fato novo foi o uso da televisão. Com a censura abrandada pela abertura política no governo João Figueiredo (e que começara com seu antecessor, Ernesto Geisel) a oposição conseguiu espaço para responder aos ataques do candidato do governo num evento inédito: um debate ao vivo. Em depoimento ao Brado Retumbante, Alberto Quartim de Morais, assessor de Franco Montoro na época, relembra os detalhes da manobra. No texto abaixo, originalmente publicado em seu livro Memórias em Linha Reta, Franco Montoro apresenta sua versão do episódio:

A campanha começou realmente na noite de 22 de março de 1982 por um debate em que enfrentei meu principal adversário, o então prefeito Reynaldo de Barros, apoiado pelo governador Paulo Maluf. Havia dezoito anos, desde 1964, esse era o primeiro debate ao vivo entre candidatos ao governo, fato que despertou um grande interesse e alguma ansiedade de ambos os lados.

O regulamento foi exaustivamente discutido entre nossas assessorias e o jornalista Ferreira Netto, encarregado da função de mediador. O animador Sílvio Santos, proprietário da TVS, que promovia o debate, mostrava-se prudente e tentava cercar-se de precauções. Estava previsto que cada lado teria direito a 150 convidados que assistiriam ao debate de um estúdio vizinho, Na última hora, Sílvio Santos telefonou-me alarmado: colocar no mesmo estúdio convidados dos dois adversários poderia criar uma batalha campal. Concordei com essa observação, que me pareceu razoável, mas recusei exigências que poderiam comprometer o debate, como, por exemplo, que fosse gravado para transmissão posterior.

Pelo acordo final, ficaram no estúdio apenas os jornalistas credenciados e cinco assessores para cada debatedor. No meu caso, o jornalista Alberto Parahyba Quartim de Moraes, meu assessor de imprensa, Fernando Henrique Cardoso, meu suplente como senador, José Serra e meu filho Ricardo Montoro.

Eu passara o dia reestudando as informações que pretendia utilizar e evitando interrupções, na medida em que é possível evitá-las numa campanha. Pedi que todos os telefonemas fossem desviados para as assessorias dos meus dois escritórios políticos montados na Avenida Brigadeiro Luís Antônio e na Rua Madre Teodora.

Nas eleições mais recentes, os debates perderam parte da espontaneidade pelo número excessivo de participantes e as regras excessivamente rígidas. Meu encontro com Reynaldo de Barros foi um confronto direto. Falhas de sua assessoria prejudicaram seu desempenho, permitindo que afirmasse coisas facilmente contestáveis. A certa altura, por exemplo, passou ao ataque afirmando, entre outras coisas, que eu me apropriara da autoria de leis que não eram minhas. Citou como exemplo a lei do salário-família e a extensão dos benefícios sociais para as empregadas domésticas. Ora, eu tinha todos os pormenores presentes. Reafirmei que a lei do salário-família fora iniciativa minha, citei datas e circunstâncias e recordei como passara por todas as comissões e fora aprovada numa sessão especial a ela dedicada sem uma única emenda.

Quanto ao projeto que propôs a extensão dos benefícios sociais para as empregadas domésticas, lembrei como fora apresentado por mim pela primeira vez em 1963 e como voltei a apresentá-lo pela segunda, terceira, quarta e quinta vezes, até que conseguiu todos os pareceres favoráveis e o governo, vendo que não seria possível continuar a barrá-lo, resolveu apropriar―se dele apresentando-o como se fosse seu. Todos os deputados conheciam a história, incluindo o líder da então Arena, Filinto Müller, que declarou da tribuna: "Este é o Projeto Montoro".

Além de restabelecer verdades como essas, o debate me permitiu dar ressonância maior à argumentação que eu utilizava havia tempos quando pregava a necessidade de mudar. Comecei pelos dezoito anos durante os quais havíamos sido governados de cima para baixo por um grupo de homens não eleitos pelo povo. Apresentei então um balanço dos resultados lamentáveis. Falei da corrupção, do desemprego, da inflação, dos pacotes, dos biônicos, do dinheiro gasto com a Paulipetro, da projetada instalação de usinas nucleares no litoral de São Paulo, algo que o povo não havia pedido, de que não estávamos necessitados e não podíamos pagar.

Irritado com as críticas, Reynaldo de Barros começou a interromper-me a argumentação impedindo que eu terminasse as frases. Aguentei o quanto pude, até que, perdendo as estribeiras, elevei a voz e mandei que calasse a boca. Essa atitude contrariava por tal forma meus hábitos, que todos ficaram atônitos no estúdio, a começar pelo meu adversário, subitamente emudecido. Não me arrependi da explosão. De certa forma, senti que soltara o grito atravessado na garganta de todos os brasileiros calados pelo regime autoritário.

Embora a campanha já estivesse em andamento, o PMDB ainda não havia ratificado oficialmente minha candidatura, estando a convenção marcada para 20 de junho. Meu concorrente era Orestes Quércia, que também pleiteava a indicação para governador. De nossa parte, foi uma convenção muito bem organizada, incluindo um conjunto paralelo de estudos e debates com representantes de sindicatos da comunidade negra e de outras minorias. Orestes Quércia confiava na sua influência direta nos diretórios do interior. Eu seguira uma estratégia diferente, havia procurado levar minha mensagem à sociedade de maneira geral, para que essa mesma sociedade influenciasse o partido. De qualquer maneira, as duas correntes vieram em massa, lotando o imenso auditório do Anhembi. Os jornais calcularam que 7 mil pessoas conseguiram entrar, sobrando 4 mil do lado de fora. O ambiente era o de todas as convenções, com música alta, cometas e muitas faixas e bandeiras. Passei toda a manhã no canto do auditório em que estavam as umas, cumprimentando os convencionais que faziam fila para votar. Como sempre, toda a minha família ficou a meu lado.

O mecanismo previa uma votação inicial para decidir qual o nome que seria apresentado para a aprovação final. Votaram os 666 convencionais e por volta das 15 horas começou a apuração. Logo se viu que eu seria o escolhido, pois estava recebendo dois votos de cada três anunciados. Quando se tornou evidente que não havia mais possibilidade de uma reviravolta, fui aclamado vencedor.

Nesse momento ocorreu um imprevisto.

Segundo um acordo firmado de longa data com a executiva do partido, o candidato a vice governador na chapa que eu encabeçava deveria ser Mario Covas. No caso de uma vitória de Orestes Quércia, o vice deveria ser Airton Sandoval. Era o que estava previsto, mas não foi o que ocorreu. Mal se conheceram os números, Quércia veio me procurar com a seguinte declaração: "Se for do interesse do partido, eu concordo em sair como candidato a vice-governador”.

Respondi que o lugar já estava ocupado por Mário Covas e de minha parte não via como nem por que isso poderia ser alterado. Quércia virou-se então para Ulysses Guimarães, presidente nacional do partido, e repetiu a mesma proposta, recebendo a mesma negativa. Nem por isso se abalou. Procurou os jornalistas de rádio e televisão para anunciar publicamente que já nos avisara estar à disposição do partido para concorrer como vice-governador. Nesse momento, percebi o engano que havíamos cometido. Os militantes do MR-8, organização que nascera na extrema esquerda mas atuava sempre como uma espécie de tropa de choque a serviço de Quércia, haviam tomado os lugares da frente. Apesar do número relativamente pequeno, produziam um barulho infernal, com batucadas e palavras de ordem, bem decididos a levar a convenção no grito.

Sentindo-se traídos, os partidários de Mário Covas firmaram posição em seu favor. Fernando Henrique Cardoso, um dos mais exaltados, declarou publicamente que não era homem de jogadas. “Isso é uma convenção de gente decente. Se acontecer o que eles estão pretendendo, eu saio do partido. " De minha parte, afirmei que os resultados da prévia haviam consagrado a chapa integrada por mim e por Mário Covas.

Por volta das l6h30, uma hora depois de conhecidos os resultados, Fernando Henrique tentou reabrir os trabalhos, mas o tumulto criado pelo MR-8 foi de tal ordem que surgiu a hipótese de uma anulação da convenção, o que não interessaria a ninguém. O próprio Orestes Quércia havia se retirado para o Hotel Samambaia, deixando que a pressão desencadeada pelo MR-8 fosse ampliada por outras vias. Embora largamente vencido, conseguira o voto de 35% dos convencionais, seus partidários usavam esse número argumentando que, se não fosse feita a sua vontade, o partido sofreria uma fratura grave, comprometendo o resultado das eleições. Diante disso, Mário Covas aceitou retirar sua candidatura e Orestes Quércia passou a fazer parte da chapa oficial.

Em 15 de novembro de l982, fui eleito com 5.209.952 votos dos brasileiros de São Paulo. Depois de quatro meses, em l5 de março de 1983, tomei posse como governador do estado.