Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Exílio

O golpe militar acabou com o governo de João Goulart e jogou centenas de governistas na oposição. Ao mesmo tempo, a derrota inesperada uniu a oposição de esquerda por algum tempo. Num primeiro momento, essas lideranças se encontraram em Montevidéu, no Uruguai. No dia 2 de abril de 1964, a primeira-dama Maria Thereza Goulart deixou Porto Alegre, com seus dois filhos, e chegou, de avião, à estância Rancho Grande, de propriedade de Jango, no município de São Borja. No dia seguinte, eles foram para Montevidéu, o que a coloca na condição de primeira exilada brasileira no Uruguai.

Jango partiu de Porto Alegre, com destino a São Borja, às 11h30 do dia 2 de abril. Estava acompanhado do general Assis Brasil e do coronel Pinto Guedes, mais dois ajudantes de ordens e o secretário Cailard.

No dia 4 o ex-presidente foi para o sítio Pesqueiro e logo depois para a estância Cinamomo, de onde partiu às 15h30 para o Uruguai. Chegou ao aeroporto de Pando, pouco depois das 17h, daquele mesmo dia 4.

A primeira grande leva de exilados viria pouco mais tarde, no dia dez de abril, quando o governo revolucionário editou um ato institucional, ainda sem número – imaginava-se que seria o primeiro e único – com uma lista de uma centena de brasileiros que perdera seus direitos políticos. Jango não era o primeiro: aparecia em segundo, logo abaixo do secretário-geral do proscrito Partido Comunista. Havia ainda governadores como Gilberto Mestrinho e Miguel Arraes, ex-ministros (Darcy Ribeiro José de Aguiar Dias, Celso Furtado, Almino Affonso, Abelardo Jurema), militares, sindicalistas e parlamentares de vários partidos, exercendo o mandato ou cargos no governo, como Leonel Brizola, Francisco Julião, Bocaiúva, Paiva Muniz, Sérgio Magalhães, José Aparecido de Oliveira e Plínio de Arruda Sampaio.

A lista

[Luiz Carlos Prestes](tags/luiz-carlos-prestes) João Goulart [Jânio Quadros](tags/janio-quadros) Miguel Arraes Darcy Ribeiro Raul Ryff Waldir Pires Luiz Gonzaga de Oliveira Leite Sampson da Nobrega Sampaio Leonel Brizola Clodsmith Riani Clodomir Moraes Hercules Correa dos Reis Dante Pelacani Oswaldo Pacheco da Silva Samuel Wainer Santos Vahlis Lincoln Cordeiro Oest Heber Maranhão José Campelo Filho Osni Duarte Pereira José de Aguiar Dias Francisco Mangabeira Jesus Soares Pereira Hugo Regis dos Reis Jairo José Farias José Jofily Celso Furtado Osvino Ferreira Alves Josué de Castro João Pinheiro Neto Antonio Garcia Filho Djalma Maranhão Huberto Menezes Pinheiro Ubaldino Santos Raphael Martinelli Raimundo Castelo de Souza Rubens Pinho Teixeira Felipe Ramos Rodrigues Alvaro Ventura Antonio Pereira Netto João Batista Gomes Ademar Latrilha Feliciano Honorato Wanderley Othon Canedo Lopes Paulo de Santana Luiz Hugo Guimarães Luiz Viegas da Mota Lima Severino Schnaipp Meçando Rachid Newton Oliveira Demistóclides Baptista Roberto Morena Benedicto Cerqueira Humberto Melo Bastos Hermes Caíres de Brito Aluisio Palhano Pedreira Ferreira Salvador Romano Lossaco Olympio Fernandes de Mello Waldir Gomes dos Santos Amauri Silva Almino Affonso Neiva Moreira Clovis Ferro Costa Silvio Leopoldo de Macambira Braga Adahil Barreto Cavalcante Abelardo Jurema Arthur Lima Cavalcante Francisco Julião José Lamartine Tavora Murilo Costa Rego Pelópidas Silveira Barros Barreto Waldemar Alves Henrique Cordeiro Oest Fernando de Sant’Ana Helio Vitor Ramos João Doria Mario Soares Lima Ramon de Oliveira Netto Luiz Fernando Bocayuva Cunha Luiz Gonzaga de Paiva Muniz Adão Pereira Nunes Eloy Angelo Coutinho Dutra Marco Antonio Tavares Coelho Max da Costa Santos Roland Corbisier Sergio Nunes de Magalhães Junior José Aparecido de Oliveira Plinio Arruda Sampaio Rogê Ferreira Rubens Paiva Paulo de Tarso Santos Moysés Lupion Milton Garcia Dutra Ney Ortiz Borges Paulo Mincaroni Temperani Pereira Gilberto Mestrinho Nelson Werneck Sodré Thiago Lofti Cabo Anselmo

Muitos brasileiros buscaram asilo nas embaixadas, antes mesmo de serem incluídos nas listas de cassações ou de terem sua prisão preventiva decretada. Caso de Rodolfo Konder, então dirigente sindical da Petrobras, que passou um mês na embaixada do México, de José Serra, presidente da UNE. Brizola passou semanas pulando de esconderijo em esconderijo em Porto Alegre, até fugir para o Uruguai, que tornou-se o primeiro reduto dos exilados.

Segundo o jornalista Elio Gaspari, em A ditadura envergonhada, cerca de 500 exilados passaram pelas embaixadas latino-americanas e pela da Iugoslávaia, a única que funciona em Brasília, cerca de 500 exilados.

Em Montevidéu, diversos grupos tramaram guerrilhas e contra-golpes, sem qualquer resultado efetivo. Brizola chegou denunciando a existência no Brasil de 30 mil a 40 mil presos políticos e alardeando ter no país 60 mil Grupos dos Onze – a estranha forma de organização que começara a organizar alguns meses antes. A partir de um quarto no modesto hotel Lancastere, vigiado pela CIA, começou a conspirar. Os tais grupos, se realmente existiam em tão grande quantidade, desapareceram.

Mais adiante, muitos exilados foram para o Chile, que acabou sendo o ponto de encontro da segunda leva de expatriados, resultante do endurecimento político provocado pelo AI-5 em 1968 e da repressão aos movimentos de luta armada. O fim do governo de Salvador Allende espalhou mais uma vez esses brasileiros, que em Santiago trabalharam na organização de um sistema de denúncia dos atos da ditadura. Certos grupos buscavam se reorganizar para levar seus militantes de volta ao país, na clandestinidade.

Outros exilados buscaram refazer a vida, estudar, inserindo-se na realidade dos países que tinham adotado. Quase todos retornaram ao país após a anistia de 1979.