O golpe militar acabou com o governo de João Goulart e jogou centenas de governistas na oposição. Ao mesmo tempo, a derrota inesperada uniu a oposição de esquerda por algum tempo. Num primeiro momento, essas lideranças se encontraram em Montevidéu, no Uruguai. No dia 2 de abril de 1964, a primeira-dama Maria Thereza Goulart deixou Porto Alegre, com seus dois filhos, e chegou, de avião, à estância Rancho Grande, de propriedade de Jango, no município de São Borja. No dia seguinte, eles foram para Montevidéu, o que a coloca na condição de primeira exilada brasileira no Uruguai.
Jango partiu de Porto Alegre, com destino a São Borja, às 11h30 do dia 2 de abril. Estava acompanhado do general Assis Brasil e do coronel Pinto Guedes, mais dois ajudantes de ordens e o secretário Cailard.
No dia 4 o ex-presidente foi para o sítio Pesqueiro e logo depois para a estância Cinamomo, de onde partiu às 15h30 para o Uruguai. Chegou ao aeroporto de Pando, pouco depois das 17h, daquele mesmo dia 4.
A primeira grande leva de exilados viria pouco mais tarde, no dia dez de abril, quando o governo revolucionário editou um ato institucional, ainda sem número – imaginava-se que seria o primeiro e único – com uma lista de uma centena de brasileiros que perdera seus direitos políticos. Jango não era o primeiro: aparecia em segundo, logo abaixo do secretário-geral do proscrito Partido Comunista. Havia ainda governadores como Gllberto Mestrinho e Miguel Arraes, ex-ministros (Darcy Ribeiro José de Aguiar Dias, Celso Furtado, Almino Affonso, Abelardo Jurema), militares, sindicalistas e parlamentares de vários partidos, exercendo o mandato ou cargos no governo, como Leonel Brizola, Francisco Julião, Bocaiúva, Paiva Muniz, Sérgio Magalhães, José Aparecido de Oliveira e Plínio de Arruda Sampaio.
A lista
Luiz Carlos Prestes
João Goulart
Jânio Quadros
Miguel Arraes
Darcy Ribeiro
Raul Ryff
Waldir Pires
Luiz Gonzaga de Oliveira Leite
Sampson da Nobrega Sampaio
Leonel Brizola
Clodsmith Riani
Clodomir Moraes
Hercules Correa dos Reis
Dante Pelacani
Oswaldo Pacheco da Silva
Samuel Wainer
Santos Vahlis
Lincoln Cordeiro Oest
Heber Maranhão
José Campelo Filho
Osni Duarte Pereira
José de Aguiar Dias
Francisco Mangabeira
Jesus Soares Pereira
Hugo Regis dos Reis
Jairo José Farias
José Jofily
Celso Furtado
Osvino Ferreira Alves
Josué de Castro
João Pinheiro Neto
Antonio Garcia Filho
Djalma Maranhão
Huberto Menezes Pinheiro
Ubaldino Santos
Raphael Martinelli
Raimundo Castelo de Souza
Rubens Pinho Teixeira
Felipe Ramos Rodrigues
Alvaro Ventura
Antonio Pereira Netto
João Batista Gomes
Ademar Latrilha
Feliciano Honorato Wanderley
Othon Canedo Lopes
Paulo de Santana
Luiz Hugo Guimarães
Luiz Viegas da Mota Lima
Severino Schnaipp
Meçando Rachid
Newton Oliveira
Demistóclides Baptista
Roberto Morena
Benedicto Cerqueira
Humberto Melo Bastos
Hermes Caíres de Brito
Aluisio Palhano Pedreira Ferreira
Salvador Romano Lossaco
Olympio Fernandes de Mello
Waldir Gomes dos Santos
Amauri Silva
Almino Affonso
Neiva Moreira
Clovis Ferro Costa
Silvio Leopoldo de Macambira Braga
Adahil Barreto Cavalcante
Abelardo Jurema
Arthur Lima Cavalcante
Francisco Julião
José Lamartine Tavora
Murilo Costa Rego
Pelópidas Silveira
Barros Barreto
Waldemar Alves
Henrique Cordeiro Oest
Fernando de Sant’Ana
Helio Vitor Ramos
João Doria
Mario Soares Lima
Ramon de Oliveira Netto
Luiz Fernando Bocayuva Cunha
Luiz Gonzaga de Paiva Muniz
Adão Pereira Nunes
Eloy Angelo Coutinho Dutra
Marco Antonio Tavares Coelho
Max da Costa Santos
Roland Corbisier
Sergio Nunes de Magalhães Junior
José Aparecido de Oliveira
Plinio Arruda Sampaio
Rogê Ferreira
Rubens Paiva
Paulo de Tarso Santos
Moysés Lupion
Milton Garcia Dutra
Ney Ortiz Borges
Paulo Mincaroni
Temperani Pereira
Gilberto Mestrinho
Nelson Werneck Sodré
Thiago Lofti
Cabo Anselmo
Muitos brasileiros buscaram asilo nas embaixadas, antes mesmo de serem incluídos nas listas de cassações ou de terem sua prisão preventiva decretada. Caso de Rodolfo Konder, então dirigente sindical da Petrobras, que passou um mês na embaixada do México, de José Serra, presidente da UNE. Brizola passou semanas pulando de esconderijo em esconderijo em Porto Alegre, até fugir para o Uruguai, que tornou-se o primeiro reduto dos exilados.
Segundo o jornalista Elio Gaspari, em A ditadura envergonhada, cerca de 500 exilados passaram pelas embaixadas latino-americanas e pela da Iugoslávaia, a única que funciona em Brasília, cerca de 500 exilados.
Em Montevidéu, diversos grupos tramaram guerrilhas e contra-golpes, sem qualquer resultado efetivo. Brizola chegou denunciando a existência no Brasil de 30 mil a 40 mil presos políticos e alardeando ter no país 60 mil Grupos dos Onze – a estranha forma de organização que começara a organizar alguns meses antes. A partir de um quarto no modesto hotel Lancastere, vigiado pela CIA, começou a conspirar. Os tais grupos, se realmente existiam em tão grande quantidade, desapareceram.
Mais adiante, muitos exilados foram para o Chile, que acabou sendo o ponto de encontro da segunda leva de expatriados, resultante do endurecimento político provocado pelo AI-5 em 1968 e da repressão aos movimentos de luta armada. O fim do governo de Salvador Allende espalhou mais uma vez esses brasileiros, que em Santiago trabalharam na organização de um sistema de denúncia dos atos da ditadura. Certos grupos buscavam se reorganizar para levar seus militantes de volta ao país, na clandestinidade.
Outros exilados buscaram refazer a vida, estudar, inserindo-se na realidade dos países que tinham adotado. Quase todos retornaram ao país após a anistia de 1979.


