Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

A declaração de Montevidéu

Texto integral da eclaração conjunta assinada em Montevidéu pelo ex-presidente João Goulart e o ex-governador Carlos Lacerda, no contexto da Frente Ampla:

Convencidos da necessidade inadiavel de promover o processo de redemocratização do Brasil, reunimo-nos em Montevidéu. Sabemos o que significam as privações á as frustrações do povo, especialmente dos trabalhadores, os que mais sofrem as consequências da supressão das liberdades democráticas. Sabemos o que quer dizer o silêncio de reprovação dos trabalhadores, submetidos à permanente ameaça da violencia e privados do direito de reivindicar seus direitos. É preciso que se transforme, corajosa e democraticamente, a estrutura de instituições arcaicas que não mais atendem aos anseios de desenvolvimento do país. É preciso assegurar aos brasileiros o aproveitamento das riquezas nacionais, em favor do seu povo e não de grupos externos e internos, que sangram e exploram o seu trabalho. Ninguém tem o direito de suprimir pela mistificação, pela usurpação total do poder civil, ou pelo odio, as esperanças do país de solucionar, pacificamente, os grandes problemas do nosso tempo. Pensamos que é um dever usar todos os recursos ao nosso alcance na busca de soluções pacificas para a crise brasileira, sem cultivar ressentimentos pessoais, nem propósitos revanchistas. Não nos entendemos para promover a desordem, mas sim para assegurar o estabelecimento de verdadeira ordem democratica, que não é a do silencio e da submissão. O salário mais justo, mais do que nunca, é uma exigencia do trabalhador, esmagado pela pobreza, e de todo o país, para a expansão do mercado interno. A retomada do processo democrático, pela eleição direta, é essencial para conquistar, ao mesmo tempo, o direito de decisão, que pertence ao povo, e a pacificação nacional, instrumento de mobilização do Brasil para o esforço do desenvolvimento com justiça social e autonomia nacional. Queremos que a paz com liberdade, a lei com legitimidade, a democracia não como uma palavra, mas como um processo de ascensão do povo ao poder. A Frente Ampla é o instrumento capaz de atender com esse sentido, responsavelmente, ao anseio popular pela restauração das liberdades publicas e individuais, pela participação de todos os brasileiros na formação dos órgãos de poder e na definição dos principios constitucionais que regerão a vida nacional, e pela retomada dos esforços para formular e pôr em execução as reformas fundamentais e a reconquista da direção dos órgãos que decidem do destino do Brasil. A formação desse movimento - uma verdadeira Frente Ampla do povo, integrada por patriotas de todas as camadas sociais, organizações e correntes políticas - é a grande tarefa que nos cabe realizar com lealdade e coragem civica, mobilizando nossas energias e concentrando-as, sem desfalecimento, para reconduzir o Brasil ao caminho democratico. Movidos exclusivamente pela preocupação com o futuro do nosso país, não fizemos pactos, não cogitamos de novos partidos, nem de futuras candidaturas à presidencia da Republica. Conversamos sim, longamente, com objetividade e respeito, sobre a atual conjuntura politica, economia e social do país. Não temos ambições pessoais, nem o nosso espirito abriga odios; anima-nos tão somente o ideal, que jamais desfalecerá, de lutar pela libertação e grandeza do Brasil, com uma vida melhor para todos os seus filhos. Assim, só assim, evitaremos a terrível necessidade de escolher entre a submissão e a rebelião, entre a paz da escravidão e a guerra civil.

Montevidéu, 25 de setembro de 1967, João Goulart Carlos Lacerda.