Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

O diário de Mourão Filho

Olympio Mourão Filho foi um dos generais mais exaltados da conspiração militar. De Juiz de Fora, foi ele o primeiro comandante que saiu com suas tropas em direção ao Rio de Janeiro, para enfrentar o governo de João Goulart. Crente do avanço concreto das “forças comunistas” no país, acreditava que as tropas conspiratórias lutariam até a morte contra os janguistas. Era o golpe militar.

Abaixo, um trecho do diário, que virou livro, do general mineiro:

"Na hora do discurso de João Goulart na TV, no Automóvel Clube, para os Subtenentes e Sargentos, deixei Maria na sala e me retirei. Não queria ouvi-lo. Não me convinha, pois eu ia partir contra ele às 4 horas do dia 31 e já eram quase 22 h do dia 30.

Mas Maria insistiu comigo, alegando que eu devia ouvi-lo, precisamente porque ia me revoltar. Deste modo, fiquei.

Ao término do discurso, cerca de 1h30min da manhã do dia 31, acendi meu cachimbo e pensei comigo mesmo que dentro de 3 horas eu iria revoltar a 4. RM e a 4.“ DI contra ele. Se eu tivesse iniciado o deslocamento para o Rio às vinte e trinta horas, estaria a três horas da Guanabara e Goulart, sua gente e os Generais todos iriam levar o maior susto de suas vidas.

À 1h30min tocou a campainha da porta. Eram o Alkimin e o Monteiro de Castro com uma carta do Magalhães e o Manifesto. Fui rude com eles, principalmente quando verifiquei que o Manifesto era o mesmo.

Magalhães estava dando uma estranha demonstração de teimosia e sem o querer, uma alta prova de confiança em mim, porque se eu não fosse realmente revolucionário, aproveitaria a ocasião para me desligar dele e em poucas hora a revolução de Belo Horizonte teria submergido.

Fui rude, repito, e no auge da fúria falava em voz tão alta que Maria acordou e desceu para ver o que acontecia. Quando ela chegou ao piso térreo, já os dois haviam saído. Quis lhe mostrar a carta do Magalhães e o Manifesto que eu recusara. Mas não pudemos encontrá-la, simplesmente porque Alkimin, velha raposa, aproveitando-se de minha distração, levara de volta os dois documentos, naturalmente querendo sonegar a prova documental do inexplicável procedimento do Magalhães. Não adiantou muito sua esperteza, porque os jornais de Belo Horizonte já haviam publicado na integra o celebre Manifesto redigido por Milton Campos, segundo fui informado pelo Cel. Campos Cristo.

Logo que me acalmei, assentei-me à mesa do escritório e redigi a lápis, em 18 minutos, meu Manifesto.

O procedimento mais do que leviano de Magalhães era e e até hoje inexplicável.

Nesta data, tanto tempo depois, ainda não me dispus a ouvi-lo. Nem adianta nada. Quanto mais analiso seu comportamento, mais estranho o acho. Não o compreendo.

Eu era o Comandante de todas as forças militares sediadas no Estado, a saber, as tropas do Exercito, da Aeronáutica e as da Policia Militar que estavam oficialmente sob meu Comando desde domingo, dia 29 à tarde, quando o Comandante Geral, Cel. José Geraldo havia recebido a missão da Força Policial.

No encontro de sábado, dia 28, no Aeroporto de Juiz de Fora, havíamos combinado que o Governador marcaria a data do desencadeamento e me remeteria a copia do Manifesto do qual constasse uma frase decisiva de nosso movimento, exclusivamente para a substituição do Sr. Goulart no Governo. Além disto, como eu era o Comandante de todas as Forças sediadas no Estado, cabia-me, evidentemente, escolher a hora do desencadeamento, por motivos óbvios.

E como procedeu o Governador? Deixou-me inteiramente marginalizado desde 17 horas do dia 28, sábado, até segunda-feira, 30, às 15 horas. E o pior, lança de surpresa, à publicidade, uma proclamação pseudo revolucionária.

E o General Guedes, meu subordinado, enquadrado na conspiração de meses até o dia 29, domingo, quando esteve em juiz de Fora, em reunião com meu Estado-Maior e o da Policia Militar, aceita o papel de traidor, limitando-se a me telefonar no próprio dia 30, às 15 horas, informando-me que o Governador entregou à imprensa sua proclamação apenas romanesca!

É incrível, audaciosa e pouco inteligente a atitude do Magalhães e sórdida a do meu subordinado direto, General Guedes, cujo dever claro era, no momento em que Magalhães o chamara, perguntar: ‛‛E o General Comandante da 4. ' R.M., 4.* Dl e da Polícia Militar, meu Chefe imediato, por consequência, está a par, foi avisado do irrompimento nesta hora e nesta data?”

Não o fez. Prestou-se ao papel de apenas me telefonar, participando- me o fato consumado. Note-se ainda que o Comandante do 12.° R. I. Estava em juiz de Fora.

E se a ligação telefônica falhasse? Tudo poderia acontecer. Neste caso o Governador de Minas, assessorado pelo esquisito General Guedes, estaria desencadeando uma revolução, enquanto o Comando em Chefe estaria na mais completa ignorância do que se passava na Capital do Estado.

É incrível e altamente inexplicável o papel de Magalhães e absolutamente indecente o do General Guedes.

A Revolução poderia ter sido comprometida com aquela traição que eu e toda a tropa, sofremos. Nem mesmo o 12.° R. I., cujo comandante estava no dia 30, às 15 horas, no meu gabinete, ficou sabendo da valente atitude do General Guedes.

Segundo o Relatório da Unidade pode-se verificar que o R. I, que entrou de prontidão — ordem emanada de juiz de Fora — teve-a relaxada porque não existiam camas suficientes para todos.

Somente no dia 31 de março, às 9 horas da manhã, foi que o 12.° R.I. soube, pelo seu Comandante, Cel. Diórcoro do Vale, que havia chegado pela madrugada em Belo Horizonte, que eu havia revoltado a 4. RM.

Não havia necessidade de muitas horas para que o Governo ― caso a proclamação de Magalhães tivesse eficiência para alertá-lo ― fizesse descer pará quedistas em juiz de Fora e Belo Horizonte e mandado Unidades de Divisão Blindada pela rodovia.

Antes de escurecer, já os para quedistas poderiam estar ‛‛cercando o QG da 4. RM e4.Dl e aquele QG das ‛rosas' do Sr. Guedes‛'.

Felizmente, o Manifesto romântico e inócuo do Governador e algumas tropelias, tais como ocupação de postos de gasolina e bancos e algumas prisões de comunistas e não comunistas, mas apenas suspeitos,.em nada inquietaram o Rio de janeiro.

As provas disto são muitas.

No dia 31 de março, fiz desencadear o movimento geral entre 4 e 5 horas. Às 11 horas o Chefe do EM do l Exército, General Milton, telefonou-me para dizer que na Guanabara corriam boatos de que eu estava movimentando tropas. Não tive remédio senão desmentir.

Meia hora depois recebi outro telefonema, desta vez do Gabinete do Ministro e o decano dos jornalistas creditados no Ministério de nome Oscar de Andrade, fez a mesma pergunta e obteve a mesma negativa.

Insistiu, indagando se podia dar o desmentido. Evidentemente, eu o autorizei.

E mais.

O General Pery Bevillacqua achava-se em audiência com o Dr. João Goulart, a pedido do General Castello Branco, Chefe do EME e Brigadeiro Corrêa de Mello, Chefe do EMAe., exatamente entre 17 e 18 horas do dia 31.

Aconselhava vivamente o ex-Presidente, em nome das duas autoridades citadas, a tomar as medidas capazes de inspirar confiança à Nação que se achava temerosa, com a crise desencadeada na Marinha.

Cerca de 18 horas o Ministro da justiça, Abelardo jurema, pediu licença e deu ao Dr. Goulart um bilhete escrito. O Presidente leu e finda a leitura, antes que o Gen. Pery recomeçasse, o Dr. Goulart lhe disse: "General, o General Mourão revoltou a 4.“ Região Militar em Minas e exige minha renúncia. O Senhor acha isto direito?‛’ Somente naquele momento O ex-Presidente ficou sabendo que eu me revoltara e exigira sua substituição".

Fonte: MOURÃO FILHO, Olympio. Memórias: A verdade de um revolucionário. L&PM, 1978.