Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

A morte de Vladimir Herzog

Vladimir Herzog morreu no dia 25 de outubro de 1975, durante uma sessão de tortura, na rua Tomás Carvalhal, 1030, no bairro do Paraíso, em São Paulo, num prédio utilizado pelo Destacamento de Operações Internas – Comando Operacional de Informações do II Exército.

Ele dirigia o jornalismo da TV Cultura e fora procurado na emissora na noite de dia 17 de outubro de 1975, uma sexta-feira, por uma equipe do Doi-Codi. Desde que assumira o cargo, alguns colunistas e parlamentares denunciavam a “infiltração comunista” na Cultura. Vlado foi defendido pelo secretário José Mindlin e tivera seu nome aprovado pelo Serviço Nacional de Informações.

Ligado ao Partido Comunista, Vlado, como era conhecido, via na organização clandestina a forma mais eficiente de combater a ditadura. A política nunca fora o território do jornalista que preferia teatro, cinema, ópera. Estudante de filosofia, foi contratado como repórter do jornal O Estado de S. Paulo por Perseu Abramo, onde em pouco tempo ficou amigo de Décio de Almeida Prado, Sábato Magaldi, Delmiro Gonçalves. Fez parte da equipe que cobriu a inauguração de Brasília, acompanhou a visita de Sartre e apaixonou-se pelo cinema.

Depois do golpe de 64, já casado com Clarice, foi trabalhar na BBC de Londres. Em julho de 1968, ela e os dois filhos, Ivo e André, voltaram para o Brasil. Vlado ficou, para fazer um curso de produção de TV e em dezembro, durante uma viagem a Itália, leu a notícia sobre o AI-5, mas resolveu voltar. O emprego garantido na TV Cultura, não se concretizou – ele fora denunciado como comunista – e durante um ano, produziu comerciais numa agência de propaganda, até ser contratado pela revista Visão.

A notícia de sua morte no Doi-Codi chegou às redações acompanhada de fotos mostrando seu corpo em um uniforme verde, numa sala com um colchão e pedaços de anotações espalhados sobre os tacos do piso, em torno de uma cadeira de plástico. A cabeça pendia para o lado e as pernas se abriam para os dois lados, única e improvável maneira de alguém se enforcar com o cinto do uniforme na grade baixa colocada diante dos tijolos de vidro que garantia luz para a sala.

Noticiada pelos jornais já livres da censura, o crime foi o primeiro a chocar a classe média. O sindicato dos jornalistas assumiu a frente da reação, estudantes da USP entraram em greve. Cinco mil pessoas foram a catedral da Sé para um ato ecumênico organizado por dom Paulo Evaristo Arns, pelo reverendo James Wrigth e com a participação do rabino Henry Sobbel, no que seria o primeiro grande protesto contra a tortura em muitos anos.

O general Ernesto Geisel determinou a abertura de um Inquérito Policial Militar que foi manipulado do começo ao fim para concluir que a versão oficial, de que ele cometera suicídio. Três meses mais tarde o operário Manoel Fiel Filho, foi igualmente assassinado no Doi-Codi e sua morte, travestida em suicídio resultou na demissão do general Ednardo D'Avilla Mello, comandante do 2o Exército. Algum tempo mais tarde, Geisel demitiria o próprio ministro do Exército e líder da linha dura, o general Silvio Frota. O presidente admitia a tortura em certo casos, mas não a insubordinação. Mandara parar com as mortes, mas os organismos de repressão descumpriram sua ordem.

A família Herzog entrou com uma ação judicial pedindo que a União fosse responsabilizada pela morte do jornalista e no dia 25 de outubro de 1978, o juiz Márcio José de Morais, da 7a Vara de Justiça Federal deu sentença a favor da viúva Clarice e dos filhos Ivo e André. Talvez fosse possível recordar ainda os que divulgaram essa versão na tribuna da Assembléia Legislativa e em colunas de jornais, mas, sinceramente, não sei do que isso adiantaria.

Dez anos mais tarde, o jornalista Paulo Markun publicou um dos muitos livros editados sobre o caso. Terminava assim:

A morte de Vladimir Herzog mudou o Brasil. Provocou a primeira reação popular contra a tortura, as prisões arbitrárias, o desrespeito aos direitos humanos. A morte de Vlado abortou um golpe dentro do golpe, estancou uma operação em marcha – teria sido um mero "acidente de trabalho"? E não é exagero dizer que ali, naquele prédio escuro do DOI-CODI, no confronto entre um homem encapuzado e seus algozes, começou a grande transformação que fez o Brasil voltar ao caminho da democracia .