Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Passeata dos Cem Mil

Para alguns, a chamada Passeata dos Cem Mil não teve tanta gente assim e só ficou conhecida por esse nome graças a mais uma sacada marqueteira do jornalista Samuel Wainer, em busca de uma manchete impactante para sua Última Hora. Outros, como o então líder estudantil Franklin Martins, asseguram que o mar de gente pelas ruas do centro do Rio de Janeiro, no dia 26 de junho de 1968 – ano de extensa movimentação estudantil, ano do AI-5 – foi ainda maior.

Não importa muito: seja qual for a avaliação, todos reconhecem que a manifestação entrou para a história.

Em Memórias Estudantis, a professora Maria Paula Araujo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, traça um rápido panorama do que foi o protesto: a questão da quantidade de pessoas presentes no episódio; o caráter pacífico da passeata e a ausência de repressão policial aos manifestantes e a posterior criação de uma comissão encarregada de negociar com as autoridades, que, inclusive, se pôs em frente de Costa e Silva a fim de defender reivindicações dos estudantes.

Na imprensa da época, as passeatas tinham seus adversários, como o cronista e teatrólogo Nelson Rodrigues, que logo cunhou mais uma de suas frases agudas:

"Há, em qualquer brasileiro, uma alma de cachorro de batalhão. Passa o batalhão e o cachorro vai atrás. Do mesmo modo, o brasileiro adere a qualquer passeata. Aí está um traço do caráter nacional"

O jornalista e escritor Zuenir Ventura dedica dois capítulos de seu 1968: o ano que não terminou, para rememorar a articulação dos intelectuais em torno da manifestação, bem como seus detalhes. No primeiro, intitulado O acordo ao amanhecer, ele perpassa o caminho tomado pelo grupo dos intelectuais – que contava com nomes como Ferreira Gullar, Luís Carlos Barreto, Hélio Pellegrino, Joaquim Pedro de Andrade, Cacá Diegues, Jânio de Freitas, Washington Novais, Ziraldo e Clarice Lispector – para a efetivação da manifestação. É narrada, com pormenores, a reunião dos 300 intelectuais com Negrão de Lima, no Salão Nobre do Palácio da Guanabara, que visava à autorização da manifestação pelo governador, bem como a ausência de policiamento pronto para repressão.

O segundo, E todos se sentaram, remete especificamente ao episódio que ficou conhecido como a Passeata dos Cem Mil. Como se estivesse ao lado do líder estudantil Vladimir Palmeira, Zuenir percorre seu caminho até a Cinelândia, onde o presidente da União Metropolitana de Estudantes chegou as 11h55, barbeado e usando um terno, na tentativa de passar despercebido, já que vivia clandestino. Neste momento, a Praça Floriano Peixoto já contava com 50 mil pessoas. Subindo ao palanque, Palmeira pediu que todos os presentes se sentassem, a fim de fazer com que eles os escutassem melhor.

O Centro da cidade, palco tradicional de memoráveis episódios históricos, estava acostumado a momentos de consagração desde que o Rio fora a Corte. Por ali tinham passado os maiores oradores do país; ali o povo carioca tinha vibrado muitas vezes de alegria ou de ódio, mas nunca tinha se sentado no chão pela vontae de um quase garoto de 23 anos.

Em sua primeira fala, Vladimir Palmeira já apontou para o horizonte com que sonhava:

Pessoal: a gente é a favor da violência quando ela é aplicada para fins maiores. No momento, ninguém deve usar a força contra a polícia, pois a violência é própria das autoridades, que tentam, por todos os meios, calar o povo. Somos a favor da violência quando através de um processo longo, chegar a hora de pegar em armas. Aí, nem a polícia, nem qualquer outra força repressiva da ditadura poderá deter o avanço do povo.

As pessoas chegavam em grupo, carregando cartazes com palavras de ordem das classes as quais pertenciam – professores, bancários, estudantes secundários e universitários, mães, garis, engenheiros, arquitetos, médicos, padres –, todos se aglutinavam na Cinelândia, e mostravam um objetivo comum: denunciar a ditadura.

Havia uma divisão entre as lideranças dos estudantes e dos intelectuais. De um lado, os que apostavam desde logo na luta armada. Do outro, os que achavam ser preciso, antes, acumular forças, como se dizia na época, em torno de questões mais imediatas. Enquanto o comunista Leandro Konder gritava "só o povo organizado derruba a ditadura", o jornalista Fernando Gabeira bradava "só o povo armado derruba a ditadura".

Às 13h40, Vladimir volta a falar, desta vez rapidamente para encerrar a concentração e iniciar a passeata, que partiu dali 5 minutos. De braços dados, perambularam por todo o percurso, em meio a massa, personalidades do show-bizz e da cultura carioca.

Do meio-fio, os espectadores – os explorados que preferiam ficar ali parados – se excitavam com a passagem dos seus ídolos. ‘Olha, o Chico Buarque!’, ‘Você viu o Caetano de cabelo curto?’ “Aquela de braço dado com o Gil é a Nana Caymmi.’ ‘Olha a Tônia, a Odete Lara, a incansável Norma Blum, a Norma Bengell, a’... Estavam todas lá.

Um bom levantamento de informações e depoimentos pode ser encontrado no Projeto Memória do Movimento Estudantil, organizado pela Fundação Roberto Marinho, com apoio da Petrobras. Fontes:

A passeata e seus reflexos. Folha de S. Paulo. 27/06/11.

Muita gente e muita ordem na passeata. Folha de S. Paulo. 27/06/11.

Bibliografia:

Projeto Memória do Movimento Estudantil - http://www.mme.org.br/main.asp?Team={3EBBBABF-203C-4E3E-B99F-E8B0CF00E072}

ARAUJO, Maria Paula. Memórias Estudantis: da fundação da UNE aos nossos dias. Rio de Janeiro: Relume Dumará, Fundação Roberto Marinho, 2007.

VENTURA, Zuenir. 1968: o ano que não terminou. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

Foto: Arquivo Nacional/Correio da Manhã.