Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Personagens

A luta pela democracia foi obra de milhões de brasileiros - e ainda não acabou. Este projeto selecionou 12 personagens cujas biografias de certo modo iluminam as várias fases do período que começa em 1961, na renúncia de Jânio Quadros e vai até a posse de José Sarney. Cada um deles teve papel de destaque em determinado momento. Todos - exceto o general João Figueiredo - estiveram juntos nos palanques das Diretas, movimento a que o último general-presidente chegou a manifestar sua simpatia, para logo depois voltar atrás.

Leonel Brizola foi decisivo na campanha da Legalidade, que garantiu a posse de João Goulart em 1961; Miguel Arraes, preso no palácio do governo de Pernambuco, sintetiza bem a situação dos políticos durante o golpe militar. Mário Covas foi líder da primeira bancada federal do MDB e defendeu as prerrogativas do Legislativo, pouco antes do AI-5; José Dirceu liderou os estudantes da Faculdade de Filosofia na batalha da Maria Antônia, foi preso no Congresso da UNE e trocado pelo embaixador americano, sequestrado por grupos que tinham se engajado na luta armada. Ulysses Guimarães lançou-se anticandidato a presidente da República em 1974, construindo o espaço para que a oposição apresentasse suas bandeiras. As greves do ABC colocaram o metalúrgico Luis Inácio da Silva, o Lula, no cenário político, de onde ele não mais sairia. Dom Paulo Evaristo Arns engajou a Igreja na defesa da liberdade e dos direitos humanos. A anistia teve em Teotônio Vilela um grande apoiador. Deputado em primeiro mandato, Dante de Oliveira ousou propor uma emenda restabelecendo as diretas para presidente e assim deu o pontapé inicial no movimento. Entre os governadores de oposição eleitos em 1982, Franco Montoro foi o que mergulhou mais fundo na campanha. Tancredo Neves participou das diretas a seu modo e tornou-se a melhor opção para a disputa no colégio eleitoral, depois da derrota da emenda.

Outras personalidades mereceriam estar nessa lista. Certamente aparecerão nos textos, documentos e depoimentos em vídeo.

No dia 6 de fevereiro de 1952, quando Dante Martins de Oliveira nasceu em Cuiabá, Getúlio Vargas era presidente e entrava na segunda semana de férias em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. João Figueiredo, ensinava oficiais a montar na Vila Militar, no Rio de Janeiro, Tancredo Neves e Ulysses Guimarães estavam no palácio Tiradentes, na condição de deputados do PSD.

Filho de um tipógrafo descendente de italianos e de uma dona de casa descendente de espanhóis, André Franco Montoro nasceu em São Paulo em 14 de julho de 1916. Fez o curso primário no Caetano de Campos, a escola pública mais prestigiada de São Paulo, mudou para Santos e para a Praia Grande, onde estudou em colégios católicos. De volta a São Paulo, fez o colegial no São Bento, onde passou a dar aulas de lógica, psicologia, filosofia e história da filosofia com apenas 18 anos.

Doze dias depois de instaurar o Estado Novo, Getúlio foi presidir a cerimônia de formatura de mais uma turma da Escola Militar de Realengo. Como de praxe, cabe à maior autoridade entregar o espadim que simboliza a condição de aspirante da arma da cavalaria ao melhor aluno. Informado de que tratava-se do filho de um coronel, o presidente capricha no elogio:

Espero que o senhor continue a carreira militar no mesmo passo em que a está iniciando, e se torne um oficial tão brilhante como seu pai.

Aos 22 anos, o líder dos estudantes paulistas era mineiro, mas nem um pouco discreto. Do teto de um ônibus ou da marquise de um edifício, era ele quem insuflava a multidão com gritos e gestos largos durante as passeatas. No dia seguinte, sua figura esguia e cabeluda ilustrava a primeira página de todos os jornais.

Nasceu Brizola, mas não Leonel: até um ano e três meses sua mãe, Onívia de Moura Brizola, só o chamava de gurizinho. Ela queria batizá-lo como Itagiba. Mas o pai, o lavrador José de Oliveira Brizola, mais conhecido como Beja, não aceitou, e, antes que os dois resolvessem o impasse, ele já estava entre os mil homens arregimentados pelo camponês maragato (federalista) Leonel Rocha para participar da Revolução de 1923.

Luis Inácio da Silva nasceu no dia 27 de outubro de 1947 numa pequena casa rural, distante uma légua (cerca de seis quilômetros) de Caetés e três léguas de Garanhuns, no Planalto da Borborema, interior de Pernambuco. Cimento só no piso da sala, no mais, chão batido. Os móveis eram poucos: mesa de comer ladeada por banco e tamboretes de madeira, várias redes e uma cama de casal.

Mario Covas Júnior nasceu no dia 21 de abril de 1930, em Santos, no litoral paulista. Filho de um português e uma espanhola, começou a se interessar pela política ainda garoto. Aos 14 anos surpreendeu seu pai ao dizer que gostaria de realizar dois sonhos: ser prefeito da sua cidade e presidente do Santos Futebol Clube.

Único filho homem e o caçula dos sete irmãos, Miguel Arraes de Alencar nasceu em 15 de dezembro de 1916 no Sítio Caititu, na zona rural de Araripe, no vale do Cariri, uma das regiões mais bonitas do Ceará. Seu pai foi um empreendedor que montou o primeiro matadouro industrial do interior, a primeira indústria de beneficiamento de algodão e ainda foi o primeiro a utilizar comercialmente a energia elétrica no sul do Ceará.

Paulo Evaristo Arns nasceu na localidade de Forquilhinha, lugarejo do município de Criciúma, na ponta extrema do Estado de Santa Catarina, a 14 de setembro de 1921, no sobrado construído por seu pai onde nasceram também quase todos os seus irmãos. Até os 12 anos ele viveu em Forquilhinha, primeiro nessa casa, em cujo andar térreo funcionavam o armazém da comunidade e uma hospedaria administrada por dona Helena Steiner Arns, e, depois, nas outras duas casas igualmente construídas por Gabriel Arns.

Quinto dos doze filhos de Francisco de Paula Neves, um misto de comerciante e político com Antonina de Almeida Neves, Tancredo de Almeida Neves nasceu em São João del Rei a 4 de março de 1910. Jogou futebol quando garoto, mas acabou se tornando um craque na política. Foi deputado, ministro, governador e presidente eleito - o primeiro da oposição. Mas não assumiu o cargo.

Um dos dez filhos de um bem sucedido proprietário rural, o alagoano Teotônio Brandão Vilela nasceu em Viçosa no dia 28 de maio de 1917 e não foi lá bom aluno: frequentou as faculdades de Engenharia e de Direito, em Recife e no Rio de janeiro e prestou exames na Escola Militar do Realengo, mas acabou largando os estudos para trabalhar com o pai.

Primeiro dos cinco filhos da professora Amélia Correa Fontes e do coletor de impostos Ataliba Guimarães, Ulysses Silveira Guimarães nasceu em Rio Claro, no interior de São Paulo. Mas como aconteceu com outras figuras públicas aqui já mencionadas há dúvidas ou imprecisão sobre a data exata de seu nascimento. Sua biografia oficial crava dia seis de outubro de 1916. Mas o repórter Francisco Ornellas de O Estado de S. Paulo localizou dois documentos que apontam para o mesmo dia, mas um ano antes.