Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Franco Montoro: um militante cristão

Fatos: 
  • Teve formação dupla, e lecionou em universidades importantes de São Paulo.

  • Fundou o movimento Vanguarda Democrática no inicio dos anos 40.

  • Foi filiado ao Partido Democrata Cristão.

  • Na ditadura, ajudou a fundar o MDB, de oposição .

  • Como governador, resolver fazer um comício na praça da Sé e levou adiante, contra a cúpula de seu partido.

  • Foi um dos fundadores do PSDB e escolheu o tucano como símbolo.

Filho de um tipógrafo descendente de italianos e de uma dona de casa descendente de espanhóis, André Franco Montoro nasceu em São Paulo em 14 de julho de 1916. Fez o curso primário no Caetano de Campos, a escola pública mais prestigiada de São Paulo, mudou para Santos e para a Praia Grande, onde estudou em colégios católicos. De volta a São Paulo, fez o colegial no São Bento, onde passou a dar aulas de lógica, psicologia, filosofia e história da filosofia com apenas 18 anos.

Formou-se em Direito na USP e em Filosofia e Pedagogia na Faculdade São Bento – mas não seu deu bem na política estudantil: perdeu as eleições para o Centro Acadêmico 11 de Agosto.

Arranjou um emprego público, casou-se em 1941 com Lucy Pestana Silva Franco, professora de História e ex-colega da Faculdade de Filosofia, e acabou se juntando a intelectuais católicos como Alceu de Amoroso Lima e Heráclito Sobral Pinto, que criaram a Vanguarda Democrática, organização que pretendia estudar os problemas econômicos e sociais do Brasil pelo viés do pensamento católico e atuar politicamente. O passo seguinte foi entrar para o Partido Democrata Cristão, pelo qual se elegeria vereador em São Paulo em 1952. Renunciou ao mandato em 1954, em protesto com o que definiu como comércio de votos para a presidência da mesa da Câmara Municipal e foi para a Assembléia Legislativa, assumindo a presidência da casa. Em 1958, chegou à Câmara Federal. Na condição de líder do PDC acompanhou João Goulart na visita aos países socialistas, durante a qual Jânio Quadros renunciou.

Teve uma posição discreta nos dias que antecederam o golpe militar e com o fim dos partidos, entrou no MDB. Sua posição era a de católico militante, adepto dos ensinamentos que o papa Leão XIII reunira na encíclica Rerum Novarum. Nem o comunismo totalitário, nem o capitalismo opressor, costumava dizer.

Em 1970 foi eleito senador e em 1978 reelegeu-se, tendo Fernando Henrique Cardoso, que concorreu por uma sublegenda do MDB, como suplente. Em 1982, foi eleito para o governo de São Paulo na primeira eleição direta depois do golpe. José Serra, João Sayad, Mário Covas, Almino Affonso, entre outros, formavam seu secretariado. Tendo que enfrentar greves e manifestações populares, Montoro também se engajou na campanha pelas eleições diretas: em agosto de 1983, lançou o Modelo Alternativo de Desenvolvimento, que entre outras prerrogativas estaduais e nacionais para superar a crise, previa o fim do pleito indireto para presidente da República.

Enquanto alguns líderes políticos defendiam um processo de abertura democrática gradual, defendendo um mandato "tampão" de Figueiredo por mais dois anos, Montoro colocou-se a frente do movimento que pedia eleições diretas imediatamente. Com essa posição, em novembro de 1983, ao lado de Tancredo Neves, governador de Minas, assinou, em Poços de Caldas (MG), a declaração em que ficavam estabelecidas os preceitos básicos para uma ação conjunta pelas eleições com a participação popular. No mesmo mês, já no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, Montoro recebeu dez governadores oposicionistas, onde firmaram um manifesto: intitulado A nação tem o direito de ser ouvida, era o ponto de partida para a grande mobilização que tomaria as ruas nos meses que se seguiriam.

Foi por iniciativa de Montoro que em janeiro de 1984 que São Paulo recebeu, na Praça da Sé, mais de trezentos mil manifestantes num dos primeiros comícios pelas eleições diretas. Dois meses depois, o governador de São Paulo se empenharia em trazer para o estado o maior comício das Diretas Já: no dia 16 de abril, cerca de um milhão e meio de pessoas ocupavam o Vale do Anhangabaú, a fim de manifestar sua vontade de votar para presidente.

Em 1988, descontente com os rumos do PMDB, fundou o PSDB. Candidatou-se ao Senado em 1990, perdendo para Eduardo Suplicy. Voltou a atuar como deputado federal entre 1995 e 1999, ano em que faleceu. Dois de seus filhos seguiram a carreira política: Ricardo Montoro elegeu-se duas vezes vereador pela cidade de São Paulo e André Franco Montoro Filho foi secretário de estado no governo Covas e tentou uma cadeira na Câmara Federal em 2006 pelo PSDB. Teve 58.010 votos (equivalente a 0,28% dos votos válidos) e não se elegeu.

Bibliografia:

ALBUQUERQUE, José Augusto Guilhon (org.) O legado de Franco Montoro. São Paulo: Fundação Memorial da América Latina: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008.

Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro; CPDOC-FGV; 1930-1983. Franco Montoro.

LIMA, Jorge Cunha (org.). Franco Montoro – Perfis Parlamentares 54. Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2009.

MONTORO, André Franco. Memórias em Linha Reta. São Paulo: Editora Senac, 2000.

Portal da Câmara dos Deputados. Biografia de Franco Montoro (http://www2.camara.gov.br/deputados/pesquisa/layouts_deputados_biografia?pk=96847).