Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

José Dirceu: um líder inquieto

Fatos: 
  • Foi um dos maiores líderes do movimento estudantil em 1968.

  • Disputou a presidência da UNE no Congresso de Ibiúna, dissolvido pela polícia.

  • Banido do país em troca do embaixador americano Charles Burke Elbrick.

  • Mudou de rosto em Cuba, voltou ao Brasil e passou anos no Paraná.

  • Foi participante ativo do governo Lula, até a crise do chamado mensalão.

Aos 22 anos, o líder dos estudantes paulistas era mineiro, mas nem um pouco discreto. Do teto de um ônibus ou da marquise de um edifício, era ele quem insuflava a multidão com gritos e gestos largos durante as passeatas. No dia seguinte, sua figura esguia e cabeluda ilustrava a primeira página de todos os jornais.

Antes de Dirceu nascer, no dia 16 de março de 1946, sua família, de ferroviários, tinha se mudado de Cruzeiro, um entroncamento importante, para Passa Quatro, uma pequena estação no fim da linha, ambas em Minas Gerais. O garoto aprendeu a ler nas revistas Lar Católico e Ave Maria, jogou futebol de salão e basquete, nadou em rio e soltou pipas, até tornar-se o chefe de uma pequena gangue juvenil da cidade. Por isso, nos anos 60, toda nova versão infantil do capeta que incomodava a cidade, levava as mães a sentenciarem:

- Esse aí parece o Zé Dirceu.

Aos 15 anos, foi para São Paulo. Com mais sete rapazes, viveu numa quitinete de um prédio de fama duvidosa e numa pensão, trabalhou como office-boy. Em 1965, começou a cursar Direito na PUC, mas não gostou do ambiente:

- Não se podia fazer nenhum tipo de atividade, o ambiente era muito atrasado e autoritário. Chegava a dar medo.

Arranjou a primeira confusão ao recusar-se a preencher o campo reservado para a religião do aluno, no formulário de matrícula. Tanto fez que conseguiu matricular-se sem declarar sua fé – ou a ausência dela. Com um grupo de colegas, criou uma contrafação de esquerda para a Turma da Canalha, tradição entre os direitistas da PUC.

Normalmente usava camiseta de malha de gola careca, sapatos sem meias e um jeans que nunca via água e sabão. Mas eventualmente, aparecia de paletó e gravata, só para contrariar. Cabelo grande e pinta de galã, costumava sentar sobre a mesa do professor nas reuniões com os estudantes e, durante as aulas, provocava os mestres, colocando os pés sobre a carteira.

Começou a discutir política no escurinho do cinema – ou logo depois dele, nas reuniões do cineclube que fundou junto com José Wilson Sabag. Mas a iniciativa foi contestada por um grupo de direita e Dirceu entrou para o Partido Comunista, passando a conviver com a turma da Faculdade de Filosofia e da Faculdade de Arquitetura. Foi quando tornou-se presença constante na rua Maria Antônia, onde funcionava a Faculdade de Filosofia da USP, a meia quadra da Faculdade de Arquitetura da USP e da Faculdade Mackenzie. Em 1968, aquele foi o centro da agitação estudantil, muito embora o Conjunto Residencial da USP, na Cidade Universitária, ainda não totalmente ocupado, já rivalizasse em termos de pólo aglutinador do movimento estudantil.

Em 1966, Dirceu tornou-se presidente do Centro Acadêmico. A essa altura, ele já circulava na chamada Dissidência Comunista, uma entre tantas correntes em que se dividia o movimento universitário. Em sua gestão, Dirceu organizou outras festas, reativou a Atlética e montou vários cursos extra-curriculares. Aliado aos arqui-rivais do Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP, criou o Conselho dos Centros Acadêmicos. Finalmente, derrotou o grupo político da Ação Popular, elegendo-se presidente da União Estadual de Estudantes. Em setembro daquele ano, um movimento quase espontâneo dos estudantes que resultou na invasão do campus, tornou-o conhecido nacionalmente. Processado por organizar a UEE, considerada ilegal pelo governo, Dirceu dormia cada noite num endereço, andava armado e acompanhado por seguranças.

O ano de 1968 começou agitado em São Paulo, por causa dos chamados excedentes: uma legião de estudantes extremamente irritados e sem ter o que fazer. Naquela época, o exame não selecionava apenas os primeiros colocados, na exata proporção das vagas existentes, como acontece hoje. Surgiram acampamentos nas ruas e nas faculdades e o governo prometeu ir em busca de mais vagas. Em março, a morte do secundarista Edson Luiz, no restaurante universitário Calabouço, no Rio, jogou gasolina na fogueira estudantil carioca, alimentando os protestos com os quais os estudantes “comemoraram” o golpe. No dia primeiro de maio, Dirceu e sua turma dissolveram a pedradas o comício na Praça da Sé, onde estava o governador Abreu Sodré.

A 12 de outubro de 1968, acontece clandestinamente o 30º Congresso da UNE, na cidade de Ibiúna, no interior de São Paulo, no qual Dirceu e outros líderes são presos. Em setembro do ano seguinte, grupos armados, dentre eles alguns ligados à militância estudantil, encontraram a solução para as prisões que, sobretudo a partir da vigência do AI-5, passaram a ser corriqueiras: ao sequestrar o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Elbrick, pediam em troca da libertação diplomata a alforria de diversos presos políticos: entre eles estava José Dirceu. Livre, Dirceu foi ao México, junto com os outros 14 militantes de esquerda libertados pelo sequestro. Um mês depois, Dirceu vai a Cuba, onde realiza secretamente treinamentos de guerrilha.

De volta ao Brasil clandestinamente, Dirceu anda armado em São Paulo, onde fica por dez dias até voltar a Havana. Em meados de 1975, submete-se a uma operação plástica no rosto, e volta ao Brasil, onde passa a viver na cidade de Cruzeiro do Oeste, no Paraná, com o nome de Carlos Henrique Gouveia de Mello. Casa-se com Clara Becker, com quem, em 1978, tem seu filho José Carlos Becker Gouveia de Mello, que posteriormente seria Zeca Dirceu.

Com a anistia decretada em 1979, Carlos Henrique pode voltar a ser José, que volta a Havana para recuperar, através de outra operação plástica, suas feições originais. Em 1980, retoma o curso de Direito e participa da fundação do Partido dos Trabalhadores. Em 1984, é o representante do partido no Comitê Intrapartidário Pró-Eleições Diretas para presidente: José Dirceu teria participação determinante durante toda a campanha.

Com o fim do regime militar, já em 1986, Dirceu é pela primeira vez eleito, e assume o cargo de Deputado Estadual Constituinte. Três anos depois, é um dos principais articuladores da candidatura de Luís Inácio Lula da Silva à presidência da República, nas primeiras eleições diretas após 29 anos. Collor, no entanto, seria o vencedor do pleito.

Eleito deputado federal em 1990, em 1994 se candidata ao governo de São Paulo, novamente acompanhando à candidatura de Lula à presidência da República. Ambos, no entanto, são derrotados nas eleições: em São Paulo, Mário Covas é eleito governador, e Fernando Henrique Cardoso é eleito presidente da República.

Em 1995, Dirceu assume a presidência do PT e, em 1998 - ano em que também apoia Lula nas eleições à presidência - é eleito deputado federal pela segunda vez. A partir de então, o petista exerceria mandatos na Câmara dos Deputados e como presidente do Partido dos Trabalhadores. Em 2006, teve seu mandato cassado por quebra de decoro parlamentar.

Bibliografia:

Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro; CPDOC-FGV; 1930-1983. José Dirceu.

DIRCEU, José; PALMEIRA, Vladimir. Abaixo a ditadura. Rio de Janeiro: Garamond, 2003.

MARKUN, Paulo.O Sapo e o Príncipe. Objetiva, 2004.

Portal da Câmara dos Deputados. Biografia de José Dirceu (http://www2.camara.gov.br/deputados/pesquisa/layouts_deputados_biografia?pk=100528).

Projeto Memória do Movimento Estudantil. Entrevista com José Dirceu. 17/12/2005.

RODRIGUES, Petterson. A virada: do exílio clandestino ao Planalto Central. Mogi das Cruzes: Universidade Braz Cubas, 2002.