Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Mario Covas: um deputado contra o arbítrio

Fatos: 
  • Cursou a Escola Politécnica da USP graduou-se em 1955

  • Em 1955, assumiu a vice-presidência da UNE.

  • Foi um dos fundadores do MDB.

  • Co-fundador do PSDB, foi o primeiro presidente do partido.

  • Durante sua carreira, só não conseguiu ser eleito para dois cargos: presidente da República e prefeito de Santos.

Mario Covas Júnior nasceu no dia 21 de abril de 1930, em Santos, no litoral paulista. Filho de um português e uma espanhola, começou a se interessar pela política ainda garoto. Aos 14 anos surpreendeu seu pai ao dizer que gostaria de realizar dois sonhos: ser prefeito da sua cidade e presidente do Santos Futebol Clube.

Covas só deixou Santos aos 17 anos de idade, para cursar a Escola Técnica Bandeirantes, em São Paulo. No terceiro ano do curso de Química Industrial, prestou concurso para a Escola Politécnica da USP, o que lhe permitiu conquistar dois diplomas em 1955: químico industrial e engenheiro civil. Aos 25 anos, jogando basquete, conheceu Florinda Gomes, a Lila, que tinha 16. Casaram-se nove anos mais tarde.

Sua primeira campanha, em 1961, foi para prefeito e teve o apoio de Jânio Quadros, de quem Zuza, como era conhecido, tornara-se admirador. Ele tivera uma atuação relevante no socorro às vítimas de deslizamento de encostas dos morros santistas como engenheiro da Prefeitura. Adotou uma girafa e a vassoura janista como símbolos da campanha, reciclou o slogan do candidato ao governo Carvalho Pinto – “Nunca foi tão fácil escolher o melhor” obteve o apoio do jornal A Tribuna, um dos mais influentes da Baixada Santista e elaborou uma declaração de princípios, alguns dos quais retomaria, anos mais tarde, ao fazer o discurso mais importante de sua vida, defendendo o deputado Márcio Moreira Alves, na véspera do AI-5:

“Cremos na Família, célula primeira da sociedade, na infância, e na juventude, credoras do melhor de nossos esforços e sacrifícios; cremos na harmonia e independência dos poderes constituídos legalmente, alicerce da ordem jurídica, econômica e social; cremos na Pátria, livre, independente e soberana, mercê do trabalho de seus filhos, e da predestinação da nacionalidade brasileira; e, porque cremos, daremos de nós a parcela de trabalho e idealismo que nos compete, na concretização das aspirações populares, que nos propomos representar.”

Perdeu a eleição por menos de seis mil votos. Antes da posse, o vencedor morreu num acidente de automóvel, provocando um grande debate na cidade sobre quem deveria assumir: o vice da chapa mais votada ou o segundo colocado? O próprio Covas resolveu a questão, afirmando que o vice deveria assumir. O fato foi de tamanha repercussão para a história nacional que o Supremo Tribunal Federal referendou o entendimento de Covas, criando uma jurisprudência que seria invocada, anos mais tarde, para garantir a posse de José Sarney, o vice de Tancredo Neves.

Em 1962, conhecido pela campanha do ano anterior, Mario Covas candidatou-se a uma vaga na Câmara Federal, pelo Partido Social Trabalhista, PST. Venceu e, em 1964, tornou-se líder do bloco dos partidos pequenos. Dois anos depois, reelegeu-se deputado federal pelo MDB, partido de oposição ao regime militar. Conquistou a liderança da Câmara em 1967, militando com Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Franco Montoro, entre outros.

No conturbado ano de 1968, Covas foi solidário com os estudantes, atuando como mediador em vários confrontos. Também abrigou alguns militantes que já estavam na clandestinidade em seu apartamento. E em 23 de julho de 1968, conseguiu, através de requerimento, criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar os ataques contra o Teatro Ruth Escobar que, em 18 de julho, fora vítima durante a encenação da peça Roda Viva, de Chico Buarque, e as origens das organizações Comando de Caça aos Comunistas (CCC) e Movimento Anti-Comunistas (MAC).

Mas sua performance mais ousada aconteceria no final do ano, quando assumiu a defesa do deputado Márcio Moreira Alves, que proferira um discurso considerado ofensivo pelas Forças Armadas. O governo pediu a cabeça do parlamentar, a Câmara dos Deputados rejeitou o pedido para que fosse aberto um processo de cassação e os militares aproveitaram o momento para decretar o AI-5 no dia 13 de dezembro de 1968.

Pouco depois, Covas foi preso e levado para um quartel do Exército em Brasília, onde ficou por oito dias. Ao sair, ficou preocupado, pois o seu nome não constava da primeira lista de políticos cassados pelo regime. Covas temia que a ausência significasse para a opinião pública e os colegas algum tipo de acordo realizado com os militares. Mas em 16 de janeiro de 1969, um mês e três dias depois da promulgação do AI-5, Mario Covas foi destituído do cargo e teve seus direitos políticos suspensos por dez anos.

Enquanto durou a cassação de seu mandato de deputado federal, Mario Covas dedicou-se à iniciativa privada. Montou uma companhia de importação e exportação, mas não teve muito sucesso. Acabou transferindo-se, primeiro, para uma empresa de engenharia de um ex-colega da Escola Politécnica e, depois, para a Ductor, firma que ganhou a concorrência para desenvolver o projeto de gerenciamento do metrô da cidade do Rio de Janeiro. Covas trabalhou na Ductor até 1982.

Mesmo cassado, ele manteve alguma atividade política: acompanhava de perto o crescimento do MDB e participava intensamente de muitas reuniões. Em 1978, coordenou a candidatura de Fernando Henrique Cardoso ao Senado, participando inclusive de comícios.

A recuperação dos direitos políticos veio em janeiro de 1979. Ao discursar pela primeira vez em Santos, ele reafirmou os valores democráticos e mandou recado aos militares, dizendo que nenhuma de suas convicções havia sido abalada com o ostracismo a que fora arbitrariamente submetido. Em setembro, foi indicado a presidente do diretório estadual do MDB paulista.

Apoiado por Franco Montoro e Fernando Henrique Cardoso, disputou o cargo com Alberto Goldman, indicado por Orestes Quércia. Na tentativa de manter o partido unido, optou-se pela chapa única, com Covas na presidência e Goldman na secretaria-geral. No mesmo ano, o regime militar, procurando enfraquecer a oposição, editou um novo ato, que extinguiu o bipartidarismo. Boa parte dos oposicionistas fundaram o PMDB e Covas manteve-se na presidência do diretório paulista.

Nas eleições de 1982, Franco Montoro disputou o governo de São Paulo pelo PMDB. Covas e Quércia, nomes fortes do partido, eram candidatos a vice. Novamente, para evitar uma divisão interna, Covas desistiu da disputa e dedicou-se à candidatura a deputado federal. O PMDB conquistou o governo e Covas elegeu-se com folga. No ano seguinte, assumiu a prefeitura de São Paulo, por indicação do governador Franco Montoro.

Sua gestão ficaria marcada pelos mutirões para a pavimentação de ruas. Em 1986, Covas elegeu-se senador com quase 8 milhões de votos, o maior resultado eleitoral da história política do país até então. Por essa época, sofreu um enfarte e foi submetido a uma angioplastia para desobstrução de uma artéria coronária . Conquistou a liderança do PMDB na Assembleia Constituinte, mas constantes atritos com o grupo de Quércia levaram Covas e seus aliados a fundar, em junho de 1988, o Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB.

No partido dos tucanos, Covas aceitou o desafio de disputar a Presidência da República em 1989, na primeira eleição direta para o cargo desde o fim da ditadura militar. Perdeu no primeiro turno e apoiou Lula no segundo.

Os eleitores deram a vitória a Fernando Collor de Mello. No ano seguinte, Covas candidatou-se a governador, mas não chegou nem ao segundo turno, vencido por Luiz Antonio Fleury Filho, apoiado por Quércia.

A melhor chance de Covas viria em 1994, ao lançar-se candidato a governador de São Paulo. Seu programa de governo apoiava-se em três revoluções: ética, administrativa e contra o desperdício. O discurso de Covas agradou, levando-o ao segundo turno com Francisco Rossi e, depois, à vitória.

O saneamento das finanças do Estado de São Paulo e a política de austeridade, não bem aceitos num primeiro momento. Em 1998, em busca da reeleição, Covas passou ao segundo turno junto com Paulo Maluf. Nas pesquisas de intenção de voto, perdia para o ex-colega da Escola Politécnica. Mas num dia inspirado, diante das câmeras, num debate pela TV, disse ao adversário que o eleitor não era bobo e saberia comparar as duas biografias. O que Covas queria era colocar em discussão o caráter de cada um. Reelegeu-se com com 9.800.253 votos na última campanha de sua vida.

Covas foi internado no Instituto do Coração, InCor devido a uma infecção. Submetido a uma cirurgia para a retirada de um tumor benigno na próstata, os médicos constataram ainda um câncer na bexiga que foi retirado.

No dia 22 de janeiro de 2001, Covas anunciou oficialmente o afastamento de suas funções de governador do estado. Geraldo Alckmin assumiu interinamente o governo. Em 6 de março do mesmo ano, Mário covas morreu vítima de falência múltipla dos órgãos por volta das 5h30, no Incor.

Bibliografia:

AYRES, Ana Lúcia. Mário Covas. O legado de uma “repórter” involuntária. São Paulo: Global Editora, 2002.

Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro; CPDOC-FGV; 1930-1983. Mário Covas.