Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Miguel Arraes: preso no próprio palácio

Fatos: 
  • Foi governador de Pernambuco por três mandatos.

  • Teve sua prisão decretada assim que foi deflagrado o golpe, por se negar a abdicar do cargo de governador.

  • Recebeu asilo na Argélia, onde viveu exilado por mais de dez anos.

  • Anistiado, filiou-se ao MDB.

  • Foi participante ativo na Campanha pelas Diretas Já.

Único filho homem e o caçula dos sete irmãos, Miguel Arraes de Alencar nasceu em 15 de dezembro de 1916 no Sítio Caititu, na zona rural de Araripe, no vale do Cariri, uma das regiões mais bonitas do Ceará. Seu pai foi um empreendedor que montou o primeiro matadouro industrial do interior, a primeira indústria de beneficiamento de algodão e ainda foi o primeiro a utilizar comercialmente a energia elétrica no sul do Ceará.

Miguel, assim batizado em homenagem ao poderoso avô materno que foi prefeito de Araripe, mudou com a família para Crato, cidade progressista para a época e a região, onde o rapaz foi matriculado no Colégio Diocesano.

Tinha 16 anos quando uma piores secas de todos os tempos atingiram o Cariri - até hoje, o episódio é relembrado em caminhadas anuais. A seca o empurrou para o Rio, onde começou o curso de Direito. Voltou ao Nordeste como funcionário público do recém-criado Instituto do Açúcar e do Álcool. Foi viver em Recife, onde terminou a faculdade e obteve algumas promoções, casando-se em 1949 com Célia de Souza Leão, irmã da mulher do usineiro Cid Sampaio. Desenvolveria com o cunhado uma relação de parceria e concorrência. Em 1947, Barbosa Lima Sobrinho, que havia presidido o Instituto do Açúcar e do Álcool, IAA, foi eleito governador e entregou a Secretaria de Fazenda para Arraes. Três anos mais tarde, ele se tornaria primeiro suplente de deputado estadual pelo PSD. Foi reeleito pelo Partido Social Trabalhista, criado por dissidentes do PTB. Em 1954, participou da campanha da Frente do Recife para prefeito e mais tarde coordenou a vitoriosa campanha do cunhado para o governo do Estado.

Arraes voltou à Secretaria da Fazenda, mas logo se elegeu prefeito de Recife, sendo eleito com o apoio de uma frente ampla que incluía os comunistas. Fez um governo bem avaliado e criou o Movimento de Cultura Popular, que deixaria marcas – combatido pelos conservadores, aplaudido pela esquerda, o MCP consagrou o educador Paulo Freire e sua pedagogia inovadora e militante e Ariano Suassuna, escritor, dramaturgo e poeta e criador do Movimento Armorial.

Em 1962, Arraes foi eleito para o governo do Estado e casou com Madalena Fiúza, amiga da irmã dele. Um ano antes, ficara viúvo, com oito filhos pequenos (Mada lhe daria mais dois).

Conseguiu um acordo inédito com os usineiros, garantindo direitos para os trabalhadores rurais e tornou-se uma liderança emergente no cenário político conturbado do governo Goulart. Circulava com a desenvoltura de quem pretendia ser candidato a presidente em 1965 – ou pelo menos, vice. Participou do comício da Central e nos últimos dias de março transmitiu a vários interlocutores seu temor de um golpe.

No dia primeiro de abril, foi preso no palácio do governo e levado para a ilha de Fernando de Noronha, onde ficou um ano, até se exilar na Argélia, onde tentou organizar a reação ao golpe. Foi condenado a 25 anos de prisão pelo Tribunal Militar de Recife.

Retornou ao Brasil com a [anistia], filiou-se ao [PMDB], elegeu-se deputado federal em 1982 e participou ativamente da campanha das Diretas, estando presente no Comício do Anhangabaú(http://www.bradoretumbante.org.br/historia/diretas-ja/o-anhangabau "comicio-do-anhangabau"). Votou em Tancredo Neves no colégio eleitoral.

Em 1986 foi eleito governador de Pernambuco pelo PMDB. Fez um governo voltado para os pequenos agricultores. Em 1990, filiou-se ao Partido Socialista Brasileiro e por esse partido foi eleito novamente para o governo em 1994, aos 78 anos, destacando-se como opositor do governo Fernando Henrique. Perdeu a reeleição em 1998 para seu ex-aliado Jarbas Vasconcelos.

Em 2002, voltou à Câmara dos Deputados, onde integrou a base aliada do presidente Lula, a quem indicou o neto e herdeiro político Eduardo Campos, para o Ministério da Ciência. Morreu no dia 12 de agosto de 2005, depois de longo período de internação. Seu corpo foi velado no Palácio onde fora preso 31 anos antes.

Bibliografia:

ALVES, Antônio de Brito. O habeas corpus de Miguel Arraes. Recife: Of Mousinho, 1965.

BARROS, Adirson de. Ascensão e Queda de Miguel Arraes. Editora Equador, 1965.

Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro; CPDOC-FGV; 1930-1983. Miguel Arraes.

ROZOWYKWIAT, Tereza. Arraes. São Paulo: Iluminuras, 2006.

TAVARES, Cristina; MENDONÇA, Fernando. Conversações com Arraes. Belo Horizonte: Vega, 1979.