Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Tancredo Neves: a oposição prudente

Fatos: 
  • Já fazia parte da cena política brasileira no governo Vargas.

  • Foi um dos articuladores da candidatura de Juscelino Kubitschek à presidência.

  • Foi primeiro-ministro do Governo João Goulart.

  • Com o bipartidarismo, filiou-se ao MDB, de oposição ao governo militar.

  • Fundou o Partido Progressista (PP), que em seguida se fundiria ao PMDB.

  • Como governador de Minas Gerais, participou ativamente da campanha pelas Diretas Já.

  • Foi eleito presidente da República, pelo Colégio Eleitoral, pouco antes de morrer.

Quinto dos doze filhos de Francisco de Paula Neves, um misto de comerciante e político com Antonina de Almeida Neves, Tancredo de Almeida Neves, nasceu em São João del Rei a 4 de março de 1910. Jogou futebol quando garoto, mas acabou se tornando um craque na política. Foi deputado, ministro, governador e presidente eleito - o primeiro da oposição. Mas não assumiu o cargo.

Depois de prestar exame para diversos cursos, Tancredo formou-se em Direito em Belo Horizonte. Participou das manifestações que precederam a Revolução de 30, prestou concurso para promotor de Justiça e elegeu-se vereador pelo Partido Progressista, chegando a presidente da Câmara Municipal de São João del Rei, até perder o cargo no Estado Novo.

Em 1947, já filiado ao PSD, Partido Social Democrático, elegeu-se deputado estadual com 5.266 votos e liderou a oposição ao governador udenista Milton Campos. Três anos mais tarde, elegeu-se deputado federal. Era líder do governo quando Getúlio Vargas o nomeou ministro da Justiça. Nessa condição, acompanhou de perto a crise que levou ao suicídio do presidente Vargas. Chegou a propor que Vargas colocasse as tropas na rua e decretasse estado de sítio: "a imprensa e os parlamentares mais exaltados ficariam mais dóceis, mais prontos ao entendimento. E a repressão no meio militar seria muito mais eficiente", diria mais tarde. Chegou ao quarto de Getúlio instantes após o presidente ter dado um tiro no peito.

Retornando à Câmara, passou a articular a candidatura vitoriosa de Juscelino Kubitschek à presidência na eleição de outubro de 1955. Diretor da Carteira de Redescontos do Banco do Brasil entre 1956 e 1958, nesse último ano assumiu a Secretaria de Finanças de Minas Gerais. Deixou o cargo em julho de 1960 para candidatar-se ao governo do estado, mas foi derrotado.

A ação política de Tancredo voltou a ter destaque durante a crise resultante da renúncia de Jânio Quadros à presidência (25/8/1961). Foi a Montevidéu, convenceu Jango e voltou a Brasília no dia primeiro de setembro com a missão cumprida. A emenda foi aprovada pelo Congresso no dia 2, e cinco dias depois Goulart assumiu a presidência da República. No dia 8, Tancredo tornou-se primeiro-ministro do primeiro gabinete parlamentarista do governo Goulart. Convidou Franco Montoro para ministro do Trabalho e Ulysses Guimarães para o Desenvolvimento, Indústria e Comércio.

Enfrentando uma crescente insatisfação social, com a multiplicação de protestos contra a inflação e por maiores reajustes salariais, e a radicalização da luta política entre os defensores das chamadas reformas de base (constitucional, agrária, urbana, bancária e tributária) e os conservadores que se opunham a elas, em junho de 1962 o gabinete Tancredo se demitiu. Em outubro, ele elegeu-se deputado federal pelo PSD mineiro. Em 6 de janeiro de 1963, o presidencialismo foi reinstaurado através de um plebiscito e Tancredo tornou-se líder do governo na Câmara.

Em 30 de março de 1964, ele tentou evitar que o presidente comparecesse a um ato público promovido pelos sargentos, argumentando que sua presença iria aumentar a animosidade militar contra o governo. No dia seguinte, Goulart foi deposto por um golpe militar e em meados de abril o general Humberto Castelo Branco assumiu o poder. Após a dissolução dos partidos decretada pelo AI-2 (27/10/1965) e a instauração do bipartidatismo, Tancredo filiou-se ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), releelegendo-se deputado federal em 1966, 1970 e 1974.

Em 1973, participou do lançamento da "anticandidatura" de Ulysses Guimarães, do MDB, à Presidência da República, na sucessão do general Emílio Garrastazu Médici. Em 1978, tornou-se líder da bancada do MDB na Câmara dos Deputados. No ano seguinte, passou a se dedicar ao seu novo cargo: senador por Minas Gerais.

Em 1979, com o pluripartidarismo, aliou-se a Chagas Freitas, Magalhães Pinto e outros moderados para criar o Partido Progressista, que acabou fundindo-se com o PMDB, quando ficou claro que as regras estabelecidas inviabilizariam seu funcionamento.

Três anos mais tarde, elegeu-se governador de Minas Gerais. Participou efetivamente da campanha das Diretas, mantendo, contudo, pontes com o governo militar. Com a derrota da emenda Dante de Oliveira, saiu candidato ao colégio eleitoral, sendo eleito por ampla maioria, tendo José Sarney, ex-presidente da Arena e do PDS como seu vice. Foi internado na véspera da posse e morreu sem chegar ao poder em 21 de abril de 1985, Dia de Tiradentes.

Bibliografia:

Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro; CPDOC-FGV; 1910-1985; Tancredo Neves.

DELGADO, Lucilia de Almeida Neves (org.) Tancredo Neves: Perfis parlamentares. Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2010.

DIMENSTEIN, Gilberto et alii. O complô que elegeu Tancredo. Rio de Janeiro: editora JB, 1985.

MIR, Luis. O Paciente: o caso Tancredo Neves. São Paulo: Editora de Cultura, 2010.

RICUPERO, Rubens. Diário de Bordo: a viagem presidencial de Tancredo. São Paulo: Imprensa Oficial, 2010.