Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Teotônio Vilela: o menestrel das Alagoas

Fatos: 
  • Em 1961, foi a favor da posse do vice-presidente João Goulart.

  • Fiel integrante da UDN, desde os anos 40, filiou-se à ARENA, partido governista, depois do golpe.

  • Foi um dos poucos arenistas a protestar contra o AI-5.

  • Foi porta-voz da distensão no governo Geisel.

  • Participou intensamente do movimento pela Anistia.

  • Em 1979, trocou a Arena pelo MDB.

  • Foi um grande entusiasta da campanha pelas Diretas Já.

Um dos dez filhos de um bem sucedido proprietário rural, o alagoano Teotônio Brandão Vilela nasceu em Viçosa no dia 28 de maio de 1917 e não foi lá bom aluno: frequentou as faculdades de Engenharia e de Direito, em Recife e no Rio de janeiro e prestou exames na Escola Militar do Realengo, mas acabou largando os estudos para trabalhar com o pai.

Foi vaqueiro e boiadeiro antes de comprar uma usina de açúcar a 100 quilômetros de Maceió. Conciliou a vida empresarial com a política, tornando-se um dos fundadores da União Democrática Nacional (UDN) em Alagoas. Participou da campanha do petróleo e em outubro de 1954 elegeu-se deputado estadual. Três anos mais tarde, participou de um entrevero na Assembléia, quando parlamentares governistas e da oposição se enfrentaram a tiros. Marcio Moreira Alves, que era repórter, foi ferido e ganhou o prêmio Esso de Jornalismo com um lacônico telegrama informando sobre o conflito.

Em outubro de 1960 foi eleito vice-governador de Alagoas na chapa do general udenista Luís Cavalcante para o período 1961-1966.

Na crise da legalidade, defendeu a posse de Jango. Em 1964, apoiou o golpe militar. Em 1966, com a extinção dos partidos filiou-se à Arena e foi eleito senador em 1966.

Depois da posse do general Ernesto Geisel, em março de 1974, Teotônio teve uma longa conversa com o novo presidente e entusiasmou-se com o projeto de distensão lenta, segura e gradual. Em novembro de 1974, sobreviveu a avalanche oposicionista que reduziu os senadores eleitos pela Arena a meia dúzia, contra 16 do MDB. No dia 25 de abril de 1975, o discurso de Teotônio foi aplaudido de pé pela bancada do MDB, depois de criticar o comportamento passivo da Arena.

Aos poucos, foi radicalizando suas posições. Percorreu o Brasil fazendo palestras, até o governo baixar o pacote de abril em 1977. No dia 20, diante de toda a bancada do MDB e de alguns poucos arenistas, o senador alagoano condenou o surgimento dos biônicos. Em novembro do mesmo ano, atacou a "democracia relativa", baseada "na manutenção de um aparelho de repressão legal", e classificou a demissão do ministro do Exército, Sílvio Frota, como uma prova de que a autoridade se legitima quando tem o apoio da opinião pública. Em fevereiro de 1978, faltou à convenção da Arena que indicou o general João Figueiredo como candidato à sucessão de Geisel.

Dois meses mais tarde, divulgou o Projeto Brasil, feito em parceria com o ex-vice-governador da Guanabara, Rafael de Almeida Magalhães. O documento pregava a extinção do AI-5, a ser substituído pelo estado de sítio; a restauração do habeas corpus para crimes políticos; suspensão dos senadores biônicos; defesa do pluripartidarismo sem restrições ideológicas; autonomia administrativa para os Municípios e os Estados; liberdade de organização sindical; política salarial entregue aos sindicatos patronais e de empregados; liberdade para a organização estudantil; controle e apoio aos investimentos estrangeiros; política energética baseada em combustível vegetal como alternativa ao fim da era do petróleo e ao alto custo da implantação de energia nuclear; máximo investimento no ensino profissionalizante; criação de um grande mercado interno baseado em uma melhor distribuição de renda; anistia política, fim da censura à imprensa e eleições diretas para a presidência da República e governos estaduais.

No lance seguinte, Teotônio aderiu à Frente Nacional pela Redemocratização, que se formou em torno das candidaturas do general Euler Bentes Monteiro e do senador emedebista gaúcho Paulo Brossard.

No início de agosto, apresentou um projeto substitutivo à proposta do governo, que acabava com o decreto-lei 477 e fazia outras reformas. Quando Luiz Carlos Prestes divulgou um manifesto defendendo o voto no MDB, perto das eleições de novembro de 1978, o presidente Geisel acusou o partido da oposição de estar infiltrado de comunistas. Teotônio definiu Prestes como uma espécie de dinossauro, mas defendeu a reintegração de Leonel Brizola e Miguel Arraes no cenário político por meio da anistia. Esta seria sua maior bandeira.

Em abril de 1979, depois da posse de Figueiredo, Teotônio deixou a Arena e entrou para o MDB. Seu primeiro discurso na oposição levou à retirada de toda a bancada governista do plenário.

Assumiu a presidência da comissão mista encarregada de analisar o projeto de anistia que o governo encaminhara ao Congresso. Nessa condição, visitou todos os presos políticos do País, antes de apresentar ao presidente do MDB, Ulysses Guimarães um substitutivo feito com a ajuda dos juristas João Paulo Sepúlveda Pertence, Dalmo Dallari, presidente da comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, e de Rafael de Almeida Magalhães. Depois de muita discussão no parlamento e na sociedade o projeto do governo foi aprovado pelo Congresso no dia 28 de agosto de 1979 com inúmeras modificações.

Teotônio reagiu à restauração do pluripartidarismo pelo governo como se fosse um verdadeiro golpe de estado "condicionado pela Comissão Trilateral", criada em 1973 por David Rockfeller e manteve-se no PMDB.

Nas greves operárias do ABC, Teotônio desempenhou papel de mediador, estando presente ao lado de Lula e de outros dirigentes, nas principais assembleias no estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo.

A partir de 1982, passou a lutar publicamente contra o câncer. Participou do programa Canal Livre em novembro de 1982, pouco antes das primeiras eleições diretas para os governos estaduais e deixou uma mensagem otimista:

Pátria foi um palavra abominada, como democracia foi durante muito tempo. Eu tenho até um discurso no senado sobre as palavras esquecidas. Mas é esta pátria que vai falar no dia 15 de novembro. Este pleito é decisivo. Sinto o Brasil num estado de calamidade, calamidade total, absoluta, todos os setores, e não temos uma outra saída se não uma representação política capaz de reorientar a vida deste país. É quase que algo milagroso, é como se eu tivesse falando coisas messiânicas, mas é assim mesmo que está vivendo hoje o brasileiro, não é de outro modo que ele está vivendo hoje, não. Se alguém ainda hoje vai para uma urna votar, vai, sobretudo, tocado deste sentimento messiânico, da existência de uma mudança que ele não concebe, como não dá para concretizar exatamente, não sabe ainda porque exatamente aquele voto vai ter alguma valia. Mas ele vai votar, o brasileiro vai votar. Vai definir a vida desse país no dai 15 de Novembro, de que maneira? Vamos descobrir. Com tanta corrupção, com tanta fraude, ainda assim vamos sobreviver. Essa é a minha esperança que o povo vote, e que procurem não apenas aqueles homens que lhe são chegados, mas aqueles que podem representar a nação. E a nação vai ser representada desde a Câmara dos Vereadores - é o vereador, o prefeito, a Assembleia Legislativa, é o governador, o deputado federal, é o senador...Só falta o presidente da república.

Alguns dia mais tarde, despedindo-se do Senado em razão da doença, Teotônio garantiu que não abandonaria a luta política:

Estou saindo desta Casa esta semana, isto não é despedida, mesmo porque não é do meu hábito despedir de nada. A vida política continua comigo, continuarei lutando lá fora, só não terei o privilégio de usar esta ou aquela tribuna. Quanto ao mais, prosseguirei na minha vida de velho menestrel, cantando aqui, cantando ali, cantando acolá, as minhas pequeninas toadas políticas.

Chegou a presidir o PMDB em julho de 1983 e impulsionou a campanha das Diretas, até morrer no dia 27 de novembro de 1983, enquanto na praça Charles Muller, em São Paulo, acontecia o primeiro grande comício das diretas. Deixou dez filhos. Entre eles Teotônio Vilela Filho, do PSDB, que seguiu a carreira política do pai e elegeu-se governador de Alagoas.

Bibliografia:

Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro; CPDOC-FGV; 1930-1983. Teotônio Vilela.

Fazendor de Histórias – Teotônio Vilela conta um pouco de sua vida. Depoimento Teotônio Vilela a Mino Carta. Editora Três.

MOTTA, Marly Silva da. Teotônio Vilela – Série grandes vultos que honraram o Senado. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: CPDOC/FGV, 1996.

Portal Fundação Teotônio Vilela (http://www.fundacaoteotoniovilela.com).

Portal Senadores - Senado Federal. Biografia de Teotônio Vilela (http://www.senado.gov.br/senadores/senadores_biografia.asp?codparl=2247).