Brado Retumbante

Do golpe às diretas

Paulo Markun

Ulysses Guimarães: o Senhor Diretas

Fatos: 
  • Durante a juventude, foi vice-presidente da UNE.

  • Em 1947 tornou-se deputado estadual pela legenda do PSD - seu primeiro cargo público.

  • No primeiro gabinete parlamentarista, em 1961, foi ministro da Indústria e Comércio, chefiado por Tancredo Neves.

  • Em 1964, apoiou o golpe militar e propôs cassações. Logo depois, passou para a oposição, filiando-se ao MDB com o bipartidarismo.

  • Em 1973, lançou sua anticanditadura à presidência da República como ato simbólico, colocando-se contra ao regime.

  • Foi um dos mais importantes nomes na campanha pelas Diretas Já.

Primeiro dos cinco filhos da professora Amélia Correa Fontes e do coletor de impostos Ataliba Guimarães, Ulysses Silveira Guimarães, nasceu em Rio Claro, no interior de São Paulo. Mas como aconteceu com outras figuras públicas aqui já mencionadas há dúvidas ou imprecisão sobre a data exata de seu nascimento. Sua biografia oficial crava dia seis de outubro de 1916. Mas o repórter Francisco Ornellas de O Estado de S. Paulo localizou dois documentos que apontam para o mesmo dia, mas um ano antes. É o que aparece na certidão de nascimento, expedida em 24 de janeiro de 1934 e no certificado de conclusão da quinta série, expedido pelo Ginásio Municipal São Joaquim, de Lorena, papéis que o próprio Ulysses entregou na secretaria da Faculdade de Direito do largo São Francisco, ao se matricular, em 1938.

Deixando de lado a dúvida que mobiliza mais astrólogos do que biólogos, fato é que as eleições entraram muito cedo na vida do jovem magro, alto e não muito loquaz. E os primeiros votos ele conquistou por seu domínio na arte de falar em público - aos 17 anos, quando foi escolhido para orador da turma da Escola Normal Livre Municipal de Lins.

A turma, com 51 moças e apenas três rapazes não ouviu o discurso que preparara e que o delegado censurou, por conter referências à Revolução de 32.

Com o diploma de professor primário nas mãos, Ulysses começou a lecionar. Seu plano era fazer Direito em São Paulo, mas antes de enfrentar o exame, achou prudente reparar uma falha de seu currículo escolar, pois nunca fora um aluno de destaque.

O curso Normal não era muito valorizado na época e talvez por isso, Ulysses tenha resolvido prestar o exame de madureza (que na época equivalia a um curso médio formal). Precavido ou pouco confiante em sua própria performance fez as provas no Ginásio Municipal São Joaquim, em Lorena. Foi aprovado com 90 de média geral, nota que nunca obtivera - e jamais conseguiria na Faculdade de Direito.

Em 1937, deixou a casa da família e foi para São Paulo, estudar Direito. Ao sacar o dinheiro para o primeiro mês, o pai resumiu a situação - sem muita diplomacia:

Agora você fica em São Paulo e nós vamos comer merda em Lins.

A dieta do jovem estudante não foi muito melhor. Ulysses sempre reconheceu o esforço de seu Ataliba e as vantagens de ser um universitário de uma das mais prestigiadas faculdades do país:

Houve dias em que caminhei da pensão para a faculdade, que ficavam próximas, divertindo-me solitariamente com a constatação de que não tinha um níquel no bolso, uma moeda com que pudesse pagar a menor despesa. O que não me impedia de desfrutar amplamente a ambicionada condição de acadêmico de direito.

Ele reforçou o orçamento dando aulas e voltou a estudar piano - que havia praticado quando garoto, tendo a mãe como professora. Passou seis anos frequentando o Conservatório Dramático Municipal, até seu amigo e preceptor, Mario de Andrade, convencê-lo a desistir.

Mas se não foi um ás dos teclados, destacou-se na legião de feras do gogó que eram as Arcadas. Em 1938, a retórica levou-o à diretoria do Centro Acadêmico XI de Agosto e à presidência da Associação Acadêmica Alvares de Azevedo. Na chapa do Partido Conservador, presidida por Francisco Quintanilha Ribeiro estava Jânio Quadros, de quem se falará mais adiante. No mesmo ano, Ulysses foi à Itália com um grupo de estudantes brasileiros e conheceu Benito Mussolini:

Estivemos com ele uns poucos minutos. A figura impressionava pela voz, pela cabeça grande.

No ano seguinte, tornou-se vice-presidente da recém-criada União Nacional dos Estudantes (UNE). Viajou por vários estados pela entidade.

Ao lado da política estudantil, a literatura era seu passatempo: no concurso literário da Academia Paulista de Letras, ganhou o título de ‘maior prosador das Arcadas’. Coordenou a publicação de uma antologia poética de obras de estudantes (que incluía alguns maus poemas de Jânio) e, no último ano da faculdade, produziria o ensaio biográfico Vida Exemplar de Prudente de Morais.

A atração pelo ex-presidente da República que também estudara no largo São Francisco pode ter uma explicação adicional: Ulysses teria integrado a Bucha, uma sociedade secreta de estudantes criada no século XIX, de onde saíram quase todos os presidentes civis da República Velha.

Depois de formado, associou-se a seu colega Antônio Silva da Cunha Bueno num escritório dedicado às questões tributárias. Mas além de não ligar para dinheiro, o filho do cobrador era esquecido, a ponto de certo dia, deixar a família de um rico falecido e o tabelião esperando, inutilmente, pela relação de bens que carregava no bolso do paletó. No meio do caminho, conta Luís Gutemberg, simplesmente distraiu-se, desviou-se e esqueceu o compromisso. O cartório fechou e Ulysses não apareceu. Pouco tempo depois, desistiu da banca particular.

Em junho de 1941, Goffredo da Silva Telles Junior, de quem fora calouro nas Arcadas, sugeriu ao pai que o nomeasse auxiliar da Diretoria Geral do Conselho Administrativo do Estado. Criado no início do Estado Novo, o DASP deveria organizar os órgãos do Estado, elaborar a proposta orçamentária, organizar concursos para contratação de servidores e assessorar o presidente da República.

Ulysses subiu depressa: em 1942, advogado auxiliar; em 1943, sub-consultor jurídico; em 1944, consultor jurídico. Só deixaria a condição de funcionário público em 1963, ao se aposentar. E mesmo sem exercer mais a advocacia pública, ele continuou pleiteando vantagens e benefícios relativos à carreira que a lei lhe assegurava, como adicionais e promoções.

Uma curiosidade: em 1942, Ulysses tornou-se secretário da Federação Paulista de Futebol. Representava o Santos Futebol Clube, time do qual era diretor-presidente da sub-sede de São Paulo.

O casamento com a política aconteceu em 12 de março de 1945, quando acompanhou seu amigo e protetor Antônio Feliciano, conselheiro do DASP, a um hotel no centro de São Paulo, onde Benedito Valadares arregimentava militantes para o PSD.

Ulysses jamais abandonaria o partido, ao qual não se filiou por ideologia:

Entrei no partido por razões de amizade. Entramos juntos na fundação e ninguém discutiu o programa, porque os partidos naquele tempo valiam pelos seus homens.

De todo modo, encontrou posteriormente uma justificativa menos emocional para a decisão:

Se a onda pessedista restaurava a liberdade, reintegrava o Brasil ao estado de direito, através da convocação da Assembleia Nacional Constituinte, eu estava à vontade para aderir.

Dali para diante, faria toda sua trajetória no parlamento. Elegeu-se deputado estadual constituinte em 1947, foi líder do PSD na Assembléia e em 1950, ganhou a primeira de 11 eleições para deputado federal. Mas até o dia 2 de dezembro de 1954, foi um parlamentar sem expressão, reconheceria mais tarde. O político cerebral, que não costumava agir por impulso, relata assim o estalo que mudou sua trajetória. Aconteceu - sempre segundo ele próprio - dentro de um Chevrolet preto. Ulysses tinha 38 anos:

De repente, como se houvesse reparado no comportamento que há oito anos praticava, tomei consciência do que fazia naquele táxi. Enfrentando o insuportável calor do Rio de Janeiro de quase meio-dia, sobraçava minha pastinha de documentos para mais uma ronda pelos ministérios e repartições públicas, levando pedidos de prefeitos e eleitores. (...)

Desisti do roteiro que deveria cumprir naquela manhã.(...) Nesse momento, decidi que não estapsd brasilva na política para ser um despachante, nem o Estado que eu imaginava tinha lugar para aquele tipo de política que estava praticando.

Não importava que aquela fosse a medida de presunção brasileira da eficiência dos parlamentares. Naquele átimo, também pensei nisso, e decidi que iria transgredir esse costume. O que eu queria da política era coisa bem diferente. Nunca mais voltaria àquelas peregrinações.

Pouco depois, ele relatou o que se passara a um grupo de amigos, na hora do almoço. No dia seguinte, ainda no Rio, ele participou de uma reunião do Diretório Nacional do PSD com o futuro candidato à presidência da República: JK, ou Juscelino Kubitschek.

Cinco anos depois, elegeu-se governador. Ganhou projeção nacional com o dinamismo de sua administração, voltada para a industrialização de um estado que parecia condenado a ser produtor agrícola, simplesmente.

Em fevereiro de 1955, a direção nacional do PSD escalou Ulysses para disputar a presidência da Câmara dos Deputados. A aliança com o PTB lhe garantia a vitória. E o fato de ser paulista certamente ajudaria a campanha de JK num estado onde o PSD não nadava de braçada. Tudo certo, tudo combinado previamente.

Bastava o diretório estadual referendar a escolha. Isso se Horácio Lafer não tivesse entrado no circuito com seu currículo imbatível: representante do Brasil na Liga das Nações durante o governo Washington Luís, deputado federal, ex-ministro da Fazenda de Vargas e paulista.

Diante do impasse, o PSD usou o expediente que transformaria em cacoete: escolheu um terceiro nome - Pascoal Ranieri Mazzilli, também paulista, mais velho e mais experiente que Ulysses. Mas no fim da novela, nenhum dos três levou: o escolhido foi o mineiro Carlos Luz, ex-ministro da Justiça de Dutra.

Um dos grandes embates enfrentados da tribuna por Ulysses foi a batalha da cédula única. O projeto da UDN era irretocável, na teoria: substituir o sistema eleitoral do chamado voto-marmita, em que cabia aos partidos distribuir cédulas já preenchidas a seus diretórios, militantes e simpatizantes, por uma cédula que ostentava o nome dos vários candidatos, cabendo ao eleitor escolher o seu na cabine eleitoral. Isso equivalia a um teste de alfabetização de eleitores.

O PSD, que era o partido com maior número de diretórios espalhados pelo Brasil, levava enorme vantagem, utilizando do método coronelista de fraude. Para barrar o projeto, Juscelino argumentou que apenas uma Justiça Eleitoral imparcial poderia imprimir e distribuir a cédula única. Obviamente, o PSD não considerava o então governo de Café Filho imparcial, principalmente na questão da distribuição das cédulas.

O grupo mais aguerrido nesse combate, pelo lado do PSD, foi um pequeno grupamento de jovens parlamentares, para quem a chamada Ala Moça "não era um outro PSD, não tinha autonomia, não era um cisma ou dissidência. Era apenas o coletivo dos que procuravam renovar o pessedismo, sem revogá-lo, e situar-se para galgar as posições de comando do partido em que alguns pareciam eternizar-se."

Ulysses acompanhou a crise de perto: (...) "tentei imaginar o que me teria acontecido, se eu fosse presidente da Câmara em 1955. Convenci-me, mais uma vez, de que a história é implacável na montagem das circunstâncias, impenetrável nos seus desfechos e absolutamente imprevisível nas suas conseqüências." Trinta anos depois, ele recordaria a lição, como se verá mais adiante.

Em fevereiro de 1955, aos 39 anos, Ulysses abandonou a condição de solteirão e casou com Ida de Almeida e Silva, de 34 anos, que todos chamavam de Mora. Irmã de um amigo dele, Mora era viúva e tinha dois filhos.

Os dois haviam se encontrado no Guarujá, durante o Carnaval de 1954, o que Mora encarara como mera coincidência. Na verdade, era armação da mãe dela. O namoro foi tão discreto que nem o colega de apartamento Oswaldo Manicardi sabia quem dirigia o Ford azul em que Ulysses embarcava com frequência durante as caminhadas noturnas dos dois amigos. Só descobriu quando Ulysses pediu-lhe que cuidasse dos papéis do casamento. O pedido de casamento foi incomum, lembraria Mora mais adiante:

Uma tarde, estou em casa e me aparece o Oswaldo Manicardi, que eu sabia que existia, mas ainda não conhecia, e me diz, assim, direto, sem maiores introduções, que Ulysses tinha mandado buscar o atestado de óbito do meu marido para fazer correr os papéis do nosso casamento. Não tínhamos combinado nada com relação a casamento e me assustei. Não sabia o que fazer. Comecei a chorar. Então, minha mãe, sem se dar ao trabalho de me consolar, mandou-me entregar o documento. Não custava nada e depois se via o que fazer. Ela sabia tudo. Eu, ainda não.

Brincalhona, às vésperas do casamento gostava de desdenhar o noivo na frente das amigas, para chocá-las:

Fui casada com um homem bonito, elegante e rico. Não sei como será a vida com um homem feio, pobre e que não liga para a elegância.

Ulysses jamais negou o impacto que Mora teve em sua vida:

Só não conseguiu embelezar-me, mas me fez outro, socialmente. Mudei de endereços, guarda-roupa, costumes. Meus amigos percebiam a mão e as atenções de Mora na minha vida.

No governo de Juscelino, Ulysses passou a ser uma das lideranças da Câmara dos Deputados. Em março de 1956, ele chegou afinal à presidência da Câmara dos Deputados - e imaginou vôos mais altos:

Se houvesse um mandamento divino proibindo sonhar com a projeção futura de uma conquista política, devo confessar que pequei. Eu contava mentalmente o tempo que me separava da campanha eleitoral de 1958 para governador de São Paulo. Passava em revista as etapas que teria que vencer e imaginava ter queimado algumas delas.

Reeleito presidente da Câmara, com 232 votos, 36 a mais do que no ano anterior, coube a Ulysses administrar um parlamento crispado entre governo e oposição.

Enquanto os 181 deputados do PSD e PTB apoiavam o governo Juscelino, os 70 udenistas faziam uma marcação cerrada. Particularmente, a chamada banda de música que tinha Lacerda como maestro. O apelido fora dado pela imprensa, porque seus integrantes faziam muito barulho. Cada um tocava um instrumento, mas sem desafinar.

Na tribuna, os udenistas usavam e abusavam da obstrução, expediente legítimo em que a minoria estica ao máximo as discussões para evitar que projetos de interesse do governo sejam aprovados. Oscar Dias Corrêa, o mais jovem da banda, tinha experiência: na Assembléia de Minas, chegara a falar seis horas sem parar. Quando esgotava os argumentos e os assuntos, lia clássicos, como a A arte de furtar, atribuída ao padre Antônio Vieira; trechos da Eneida de Virgílio, das Epístolas de Horácio, das Catilinárias de Cícero.

Dias Correa registraria em suas memórias o pacto discreto que os músicos da UDN tinham com os colunistas políticos da época: "O que os jornalistas queriam? O que queria o Murilo Melo Filho para a sua seção Posto de escuta, na Manchete? E o Carlos Castello Branco para a sua Coluna do Castelo, no Jornal do Brasil? Eles queriam frases. Então, um dia, eu pedi ao Murilo: 'Quando a frase for boa, você pode dizer que é minha. Quando for ruim, você bota na dos meus adversários. Era uma troca permanente, os jornalistas traziam boatos para a gente e a gente levava boatos para eles".

No dia primeiro de abril de 1959, Ulysses recebeu o pedido de cessação das imunidades parlamentares do maestro daquela banda, para que fosse processado com base na Lei de Segurança Nacional, por causa da Carta Brandi.

Ulysses fez o possível para dificultar a vida de Lacerda - mudando a ordem dos discursos, para que o de defesa fosse o primeiro, ao contrário do usual. O udenista perdeu a votação, mas manteve suas imunidades, porque seus adversários não conseguiram 2/3 dos votos. Em seguida, Lacerda devolveu a bola, denunciando as frequentes ausências do presidente.

Ulysses realmente andava ausente do plenário, preocupado com sua pré-campanha para o governo paulista - seu rival era Carlos Alberto Carvalho Pinto, ex-secretário de Finanças do governador Jânio Quadros.

Mas o grande cabo eleitoral não deu o ar de sua graça: a presença de Juscelino na campanha de Ulysses ficou circunscrita a um cartaz. Dois anos antes, JK estimulara o presidente da Câmara a concorrer com uma frase genérica, bem ao estilo mineiro:

O desenvolvimento econômico opera prodígios e você comprou na baixa as ações dessa grande empresa política. Breve, breve, vai receber bons dividendos eleitorais. Você está predestinado a multiplicá-los em São Paulo. Eu farei questão de oferecer os necessários testemunhos, como penhor de gratidão e da grande amizade que nos une.

Em outubro de 1960, Jânio Quadros era eleito Presidente da República, derrotando o general Lott, candidato de Juscelino. Em agosto do ano seguinte, no entanto, Jânio renunciaria, gerando agitação no mundo político. Jango era seu vice, mas não era bem-quisto pelos militares e políticos mais conservadores, que colocaram-se contra sua posse. Em setembro, Ulysses votou a favor da Emenda Constitucional nº 4, que instituia o regime parlamentarista de governo, solução encontrada pelo Congresso para cessar com a crise política.

Com a posse de Goulart, em 7 de setembro de 1961, foi constituído o primeiro gabinete parlamentar, encabeçado por Tancredo Neves. San Thiago Dantas ficou com as Relações Exteriores; Ulysses Guimarães assumiu a pasta da Indústria e Comércio e Franco Montoro assumiu o ministério do Trabalho e da Previdência Social. Em junho de 1962, no entanto, Ulysses exonerou-se do cargo, juntamente com todo o gabinete. Em outubro, concorreu as eleições, via pela qual reelegeu-se deputado federal, com menos da metade dos votos obtidos em 1958.

Em 31 de março de 1964, Jango era deposto da Presidência por iniciativa de um grupo de militares. Imediatamente após a posse do novo presidente, no dia 2 de abril, os comandantes do golpe iniciaram o processo que foi denominado “Operação Limpeza”, cujo objetivo era eliminar os opositores do novo governo. Os expurgos foram realizados dentro das próprias Forças Armadas, a partir de um Comando Revolucionário criado por Costa e Silva e composto por três militares - um de cada Força - sendo paulatinamente estendida aos políticos e civis em geral.

Com o país sob controle, pipocaram propostas de estabelecimento da nova ordem. Antonio Galotti, da Light, Golbery e o jornalista Júlio de Mesquita Filho (...) chamou-se primeiramente Decreto Institucional. Em comum, as propostas sugeriam dissolução do Senado, Câmara e assembléias legislativas, e ainda a anulação do mandato dos governadores e prefeitos e a suspensão do habeas corpus.

Oito notáveis do Congresso - Adauto Lucio Cardoso, Daniel Krieger, Ulysses Guimarães, Martins Rodrigues, Paulo Sarasate, Bilac Pinto, Pedro Aleixo, João Agripino - redigiram outra proposta, que cassava os direitos políticos da cúpula janguista por 15 anos.

As propostas não foram consideradas, mas Francisco Campos redigiu um ato institucional provisório que não tinha número (deveria ser o único) com 11 artigos. Dava mais poder ao Executivo e Judiciário, enfraquecia o Congresso e permitia a cassação de mandatos e direitos políticos por um prazo de 60 dias. Funcionários públicos poderiam ser demitidos nos seis meses seguintes.

No dia 11 de abril, o Congresso elegeu Castelo Branco presidente da República. Em seu discurso, prometeu entregar o comando de "uma nação coesa" a um sucessor "legitimamente eleito", ainda em 1966.

No dia 6 de agosto de 1966, Palácio Tiradentes, na Guanabara, foi realizada a primeira convenção nacional do MDB, com 146 deputados e senadores e 35 delegados regionais. Decisão: não participar de eleições indiretas para presidente e governadores, mas participar das diretas, exigindo garantias para sua realização, reafirmar compromisso de luta pelas liberdades democráticas e respeito aos direitos humanos. Divulgar manifesto.

Comissão executiva: senador Oscar Passos, do Acre, Vice-presidentes, Ulysses Guimarães, Montoro.

Ulysses Guimarães: "O 'MDB foi uma criação emergencial, imaginada pelo regime de 64 como simples legenda para registrar candidatos', e disso teria resultado ' a imagem de que é tudo a mesma coisa, Arena e MDB'.

Reeleito para a Câmara em 1966 e 1970, em fevereiro de 1971 assumiu a presidência do MDB. Em 1973, foi lançado "anticandidato" à presidência da República, disputada no Colégio Eleitoral, tornando-se então um símbolo de resistência ao regime militar. A eleição indireta, realizada em 15 de janeiro de 1974, deu a vitória, conforme o previsto, à chapa governista, encabeçada pelo general Ernesto Geisel. Em novembro Ulysses elegeu-se, deputado federal pela sétima vez consecutiva. Nesse pleito, o MDB obteve uma consagradora vitória, elegendo 15 senadores nas 21 vagas em disputa e 165 entre os 364 deputados federais.

Nas eleições indiretas de 1974, a anticandidatura de Ulysses e Barbosa Lima Sobrinho pacificou, momentaneamente, as correntes intrapartidárias. "É o anticandidato que vai percorrer o País, denunciando as antieleições", dizia Ulysses, na sucessão de Médici.

A idéia da campanha simbólica partiu dos autênticos. Mas um acordo foi quebrado: em vez de renunciar à candidatura e denunciar o caráter antidemocrático das eleições, os dois quixotes do MDB permaneceram até o fim. Não receberam os votos dos autênticos. O general Ernesto Geisel saiu vitorioso.

"O acerto com os autênticos era renunciar na véspera e esvaziar o pleito. Mas isso não foi mesmo cumprido", lembra-se o ex-deputado e ex-ministro da Justiça Fernando Lyra. O ano de 1974 marcaria ainda a vitória legislativa do MDB, que ampliou seus quadros no Congresso.

Chico Pinto reconhece que a anticandidatura serviu, ao menos, para Ulysses "tomar gosto" pela oposição aos militares.

Para fora do MDB, o primeiro movimento de Ulysses foi em direção a Lula. No dia 26 de maio, ele e Freitas Nobre foram encontrar o presidente do PT. Antes do encontro, Lula disse que as oposições não deviam lançar candidato, para evitar rivalidades. Ficou acertado que procurariam instituições da sociedade civil, como a Ordem dos Advogados e a Conferência Nacional dos Bispos. Faltava a adesão do PDT de Brizola.

Em abril de 1977, depois que o MDB se recusou a aprovar o projeto de reforma do Judiciário enviado pelo governo, o presidente Geisel decretou o recesso do Congresso e editou o chamado "pacote de abril", que estabelecia, entre outros pontos, a permanência da eleição indireta para os governos estaduais em 1978, e a eleição indireta de um senador por estado. Em junho, o MDB obteve consentimento para a formação de uma rede nacional de rádio e televisão a fim de transmitir os pronunciamentos de seus líderes feitos durante o simpósio "A luta pela democracia", que foram bastante críticos ao regime militar. Em represália, o líder do MDB na Câmara, Alencar Furtado, teve seu mandato cassado e os direitos políticos suspensos por dez anos, e Ulysses foi acusado de desobediência à legislação eleitoral.

Em agosto de 1978, o MDB aprovou os nomes do general Euler Bentes e do senador Paulo Brossard para disputarem a presidência e a vice-presidência da República por via indireta. Ulysses designou uma comissão executiva para organizar a campanha dos candidatos, mas não participou diretamente dela. Reunido em 15 de outubro, o Colégio Eleitoral elegeu a chapa governista formada pelo general João Figueiredo e Aureliano Chaves. Em novembro, Ulysses voltou a eleger-se para a Câmara.

Em março de 1979, o general Figueiredo tomou posse. Nesse ano, duas importantes medidas foram tomadas: a decretação da anistia, em agosto, e a extinção dos partidos políticos em novembro. No quadro da reformulação partidária que então se abria, a maioria do antigo MDB ingressou no Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Ulysses Guimarães foi eleito seu presidente.

Em novembro de 1980, o Congresso aprovou projeto do governo restabelecendo eleições diretas para os governos dos estados em 1982. Dois anos depois, Ulysses reelegeu-se mais uma vez. Nessa eleição, o PMDB elegeu nove governadores. O avanço oposicionista fez crescer a mobilização em torno da eleição direta para a presidência da República. Aos poucos, a campanha das Diretas Já tomou conta das ruas. Apelidado pela imprensa de "o Senhor Diretas", Ulysses participou intensamente dos comícios. No Congresso, estava em discussão uma emenda constitucional, apresentada pelo deputado Dante de Oliveira, que propunha eleições diretas para a presidência e convocava a primeira eleição para 15 de novembro de 1984. Porém, no dia 25 de abril, a emenda não foi aprovada. A oposição, dividida, decidiu participar das eleições indiretas, no Colégio Eleitoral, escolhendo Tancredo Neves, governador de Minas Gerais, seu candidato.

Era preciso, ainda, conseguir o apoio de setores governistas, condição essencial para a vitória. Isso tornou-se possível porque, à medida que o nome de Paulo Maluf, ex-governador de São Paulo, consolidava-se como o candidato do situacionismo à presidência, políticos antimalufistas formaram uma dissidência, a Frente Liberal, e passaram a negociar a sucessão com a oposição. Assim, coube à Frente Liberal indicar o candidato a vice, senador José Sarney. Em 15 de janeiro de 1985, no Colégio Eleitoral, Tancredo foi eleito presidente, derrotando Maluf por 480 votos contra 180.

A posse de Tancredo Neves seria no dia 15 de março. Na noite de 14 de março, contudo, foi internado às pressas num hospital de Brasília. Sarney foi empossado interinamente na presidência, mas o homem forte era Ulysses. Além de ocupar a presidência da Câmara dos Deputados, assumida em fevereiro, e a do PMDB, partido que detinha 80% dos ministérios e a maioria dos parlamentares, por ser o presidente da Câmara era o substituto legal de Sarney. No dia 21 de abril, Tancredo Neves morreu e Sarney foi efetivado na presidência.

Em fevereiro de 1986, o governo lançou um plano econômico, o Plano Cruzado, cujo objetivo era, através do congelamento de preços e salários, reduzir a inflação. Em decorrência do sucesso inicial do Plano Cruzado, Sarney atingiu altos índices de popularidade. Em março, Ulysses foi reeleito presidente do PMDB. Disputando, pela décima vez, uma cadeira de deputado federal por São Paulo, percorreu o país fazendo campanha dos candidatos do partido aos governos estaduais. Em novembro, o PMDB conseguiu eleger todos os governadores, à exceção do de Sergipe. Ulysses, com 590.873 votos, foi o segundo deputado federal mais votado do país. No dia 21 de novembro, o governo anunciou que o Plano Cruzado teria que sofrer alguns ajustes. Em conseqüência, as tarifas públicas aumentaram e a inflação disparou. Diante da crise interna do PMDB, Ulysses precisou buscar apoio fora do partido para garantir sua reeleição para a presidência da Câmara em 3 de março. Neste mesmo dia, foi eleito presidente da Assembléia Nacional Constituinte (ANC). Passou então a acumular a presidência do PMDB, da Câmara dos Deputados e da Constituinte.

A ANC foi instalada no dia 1º de fevereiro de 1987. Em maio, Ulysses começou a defender a proposta de mandato de cinco anos para o presidente da República, ponto de vista defendido por Sarney. A posição adotada por Ulysses, acusado de cumplicidade com o presidente, contribuía para acentuar a crise no PMDB. Em junho de 1988, diversos peemedebistas deixaram o partido e criaram o Partido da Social Democracia Brasileira. No dia 5 de outubro, a nova Constituição foi promulgada.

As eleições presidenciais estavam marcadas para 15 de novembro de 1989. Em abril, Ulysses foi escolhido candidato do PMDB, mas uma parcela significativa do partido não participou de sua campanha. Mesmo dispondo de 22 minutos diários de programa eleitoral, Ulysses obteve apenas 4,43% dos votos. No segundo turno, realizado em dezembro, Fernando Collor de Melo derrotou Luís Inácio Lula da Silva e elegeu-se presidente. Em outubro de 1990, Ulysses foi reeleito deputado federal, recebendo menos de um décimo dos votos alcançados em 1986. Em março de 1991, Orestes Quércia o substituiu na presidência do PMDB.

A recuperação política de Ulysses veio em meados de 1992, durante o processo de afastamento do presidente Collor. No dia 9 de maio, a revista Veja publicou denúncias do empresário Pedro Collor contra o irmão presidente. Mesmo após a instalação da CPI, Ulysses não via com bons olhos a proposta de impeachment. Com a evidência dos fatos e a adesão popular, mudou de posição e seu gabinete transformou-se no quartel-general da CPI. Ciente de que a vitória do impeachment no Congresso seria mais fácil se a votação não fosse secreta, trabalhou para a adoção do voto aberto, afinal aprovado. Em 29 de setembro, por grande maioria, Collor foi declarado impedido de continuar na presidência, sendo substituído pelo vice Itamar Franco.

Ulysses Guimarães desapareceu em 12 de outubro de 1992, em um acidente de helicóptero no litoral do Rio de Janeiro. Seu corpo não foi encontrado, mas a morte foi oficialmente reconhecida.

Bibliografia:

GUTEMBERG, Luiz. Moises: codinome, Ulysses Guimarães: uma biografia. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.

SCARTEZINI, Antonio Carlos. Dr. Ulysses: uma biografia. São Paulo, Marco Zero, 1993.